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“Nóis num tá aqui por boniteza”

Zuenir Ventura
“Nóis num tá aqui por boniteza”

(texto cedido à Abraji pelo autor) 

Ela se chamava Socorro — Maria do Socorro Lira Feitosa. É possível que o ex-presidente Lula se lembre dela, apesar de passado tanto tempo do acontecido. Quem a conheceu não se esquece. Ela tinha 32 anos, nove filhos, a cor de uma índia e a bravura de uma mãe coragem. Já havíamos descido a serra de Garanhuns e estávamos no trevo que leva da BR-423 a Água Belas, quando ela apareceu.

Com outros colegas, cobríamos a primeira Caravana da Cidadania, de Lula, uma das experiências profissionais mais marcantes para todos nós, acredito. No total, foram sete caravanas, que percorreram 267 cidades do interior (mais tarde, de 1994 a 2001, houve outras dez expedições a 120 cidades). A nossa demorou 24 dias e passou por 54 lugares e lugarejos. Sem fazer comícios, até porque ainda não era candidato oficial, ouvindo mais do que falando, Lula pôde travar um inédito corpo a corpo com um país miserável e esquecido. Poucos políticos desceram tão a fundo no Brasil real. Essa “Viagem ao coração do Brasil”, como foi chamada, talvez explicasse o anúncio de que a “guerra contra a miséria” seria a prioridade de seu governo.

De repente, nossos dois ônibus foram parados por um grupo de pessoas numa elevação, diante de um cruzeiro, e assistimos à cena. Um palanque havia sido improvisado com a ajuda do carro de som da caravana, e do alto-falante saía uma voz feminina com uma determinação incomum: “Nóis num tá aqui por boniteza. Nóis tá por precisão. A gente tamus passando fome”.

Na época, abril de 1993, escrevi: “O vocabulário era de subsistência, como a vegetação daqui, onde nada é desperdiçado. A gramática era estropiada como a roupa que a oradora usava. A semântica era às vezes tão difícil quanto o sentido dessas vidas. Mas aquele discurso — aquele começo de fala principalmente, introduzindo um toque inesperado de agressiva ironia — foi um choque”.

Em poucos minutos, Socorro resumiu sua história. Quando soube que a “Caravana do Lula” ia passar, ela resolveu reunir mais de cem companheiros e formou sua própria caravana. Às 11 horas da noite anterior, começaram a descer os 48 quilômetros de serra. Juntaram folhas de palma, um resto de farinha, alguns tocos de vela e se puseram na estrada, “recebendo o relento da noite”, como ela disse, parecendo uma personagem saída de Morte e vida severina, de João Cabral.

Eram dez da manhã quando uma senhora, sob o efeito da fome e do sol, desmaiou. Socorro segurava o microfone pela primeira vez e exigia mais vagas nas frentes de trabalho, comida imediata e um caminhão para conduzi-los de volta: “Nóis num vorta a pés”. Tendo que seguir viagem, Lula deixou uma comissão chefiada pelo senador Eduardo Suplicy para acompanhar a líder dos famélicos da terra até a prefeitura, onde apresentaria suas exigências. Foram negociações tensas, porque na região estavam ocorrendo muitos saques a lojas e feiras-livres. O prefeito reclamou da insuficiência de recursos, da dimensão da miséria e alegou que as coisas não podiam ser resolvidas de uma hora para outra. Foi então que ouvi pela primeira vez uma frase muito comum hoje: “A gente temus pressa”, disse-lhe Socorro, “porque quem tem fome tem pressa”.

Quem acabou resolvendo o impasse foi Suplicy, tirando dinheiro do bolso e exigindo que todos os presentes, inclusive o prefeito e os secretários, fizessem o mesmo. Com isso, compraram trezentos pães e alugaram um caminhão. Quando Socorro voltou ao trevo para anunciar que tinha conseguido condução e comida, o grupo inicial havia dobrado: agora eram cerca de duzentos famintos debaixo de um sol inclemente de quase meio-dia.

Eu nunca tinha visto tantas pessoas juntas com fome. Num país onde há 40 milhões de indigentes, não é difícil encontrar crianças e adultos nas ruas das cidades sem ter o que comer: há sempre um na esquina pedindo esmola ou um prato de comida. Dando um real aqui, um sanduíche ali, temos a sensação de que resolvemos o problema, pelo menos o de nossa consciência culpada. O que havia de novo e assustador naquela situação era a quantidade de famintos. Como saciar aquela fome endêmica?

Por várias vezes, Lula declarou o quanto essas caravanas foram importantes para o seu aprendizado de Brasil. Chegou a dizer que elas são a universidade que ele não frequentou. Um geógrafo, o professor Aziz Ab’Saber, que acompanhou quase todas as viagens, considerou também a experiência como o melhor diploma que um candidato a presidente poderia obter.

Pelo impacto que o “episódio do trevo” causou então em Lula, acho que a principal lição desse curso supletivo ele aprendeu com Maria do Socorro, cujo destino não se sabe qual foi. Mas ele teve a consciência de que o país então o elegeu não por boniteza, mas por precisão.

No trevo que leva da BR-423 a Águas Belas, a 95 quilômetros de Garanhuns, Lula encontraria o personagem mais impressionante da primeira etapa da travessia do sertão _ desta vez uma mulher. O grupo que parou o ônibus parecia mais disposto e organizado do que o anterior, aquele que exibiu para a caravana a fila da seca: latas vazias à espera de um carro-pipa. 

Em lugar de latas, muitos agora carregavam na mão ou mastigavam uma planta que os habitantes do Sul Maravilha só conhecem de foto. Era a palma, um tipo de cactus com menos espinho, que os animais apreciam, mas que Lula, quando teve que provar, achou com gosto de pneu velho, como se o novo fosse mais saboroso.

Até os jornalistas, que são pagos para deixar a emoção em casa, se arrepiaram quando, numa elevação onde há um cruzeiro, assistiram ao nascimento de uma líder. Ali fora improvisado um palanque com a ajuda do carro de som da caravana. A primeira voz feminina que saiu do alto-falante tinha uma determinação incomum: “Nóis num tá aqui por boniteza. A gente tamus passando fome.”

O vocabulário era de subsistência, como a vegetação daqui, onde nada é desperdiçado. A gramática era estropiada como a roupa que a oradora usava. A semântica era às vezes tão difícil quanto o sentido dessas vidas. Mas aquele discurso _ aquele começo de fala principalmente, introduzindo um toque inesperado de agressiva ironia _ foi um choque. Os jornalistas, que em geral aproveitam a hora dos discursos para relaxar _ porque são repetitivos _ se voltaram para o improvisado palanque.

Mesmo quem estava atrás podia perceber a firmeza e dignidade do tom daquela voz. Sua dona era uma mulher baixa, de 32 anos, nove filhos, a cor de um índio e a bravura de uma mãe-coragem. 

Em poucos minutos, Maria do Socorro Lira Feitosa resumiu a sua história, a história de sua comunidade, feita de miséria, desemprego e fome. Quando soube da passagem da Caravana da Cidadania, ela resolveu reunir mais de cem companheiros e formou sua própria caravana. Às 11 horas da noite anterior começaram a descer as oito léguas, ou 48 quilômetros, de serra.

Juntaram folhas de palma, um resto de farinha, alguns tocos de vela e se puseram na estrada, “recebendo o relento da noite”, como ela diz, parecendo uma personagem saída de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Pararam algumas vezes, descansaram um pouco, mas às sete da manhã já estavam na luta. Foram primeiro à Prefeitura, mas o prefeito enxotou-os. Dirigiram-se então para o trevo, onde barrariam a Caravana da Cidadania.

Agora, Socorro segurava o microfone pela primeira vez e anunciava que, além de providências como mais vagas nas frentes de trabalho, ela exigia imediatamente comida e um caminhão para conduzi-los de volta. “Nóis num vorta a pés”, garantiu e ninguém duvidou, inclusive Lula, que improvisou logo uma comissão, nomeando como integrantes o senador Eduardo Suplicy e o deputado Alcides Modesto. Maria do Socorro, claro, faria parte também. O pessoal ficaria ali à espera. A caravana seguiria porque tinha hora marcada em Canapi, a próxima parada.

Naquela manhã, o prefeito José de Julião, do PFL, podia esperar tudo, até o saque da feira-livre ali perto da prefeitura. Cada vez mais isso estava acontecendo nas cidades vizinhas. Ele só não podia contar com aquela cena: Maria do Socorro invadindo seu gabinete.

Acompanhada de um senador, de um deputado e da imprensa, Maria do Socorro não era esperada. A mesa do prefeito estava cheia de papéis e ele assinava o que parecia ser receitas médicas, uma atrás da outra. Na verdade, eram. Ele estava autorizando o aviamento, enquanto umas 50 pessoas esperavam em fila do lado de fora.

Quando viu Maria do Socorro entrar, levantou-se surpreso. Dessa vez não havia hostilidade em sua atitude. Mas é possível que o rosto daquele nordestino moreno tivesse ficado mais claro naquele momento. Percebendo que a situação estava tensa, Suplicy assumiu os trabalhos com seu ritmo arrastado, capaz de aplacar qualquer turbulência, o que acabou sendo providencial.

Disse que a missão era de paz e falou de seu projeto de renda mínima _ um plano complexo cuja explicação ali aumentou a fome, mesmo de quem não estava, como Socorro, há doze horas sem comer.

O prefeito reclamou da insuficiência de recursos, da dimensão da miséria que o cercava, de uma cidade que, chamada de “a capital do feijão”, há dois anos importava o produto do Paraná. Pelo jeito não ia resolver nada. 

A situação era de fato a que no Sul virou moda chamar de emblemática: a autoridade chorando miséria de barriga cheia na frente da própria miséria. Tive vontade de interrompê-lo: “Prefeito Zé Julião: vosmicê me adescurpa, mas nóis num tá aqui por boniteza”.

Na difícil condição de mediador entre a miséria e o poder, o senador Eduardo Suplicy era o retrato de que, por menos que o Brasil tenha mudado, mudou alguma coisa. Há cem anos, um Matarazzo não ia atrás de Socorro nos cafundós do sertão. Imagine o que diria o senhor conde.

Às onze e meia, Socorro deixava a Prefeitura. Apesar do cansaço e da fome, não escondia a satisfação. Só não explicava por que não aceitara o cafezinho e o copo de água que lhe foram oferecidos insistentemente no gabinete do prefeito. Passaria de novo pela feira-livre e não ia aceitar nem uma fruta. Podia ser orgulho, timidez, pudor. Mas podia ser a decisão de não comer enquanto os companheiros não comessem. Ela não disse.

Tivemos que nos retirar antes da chegada dos pães e do fubá. Parece que tudo correu bem, se é que se pode achar que tudo correu bem quando a fome de doze horas de uma cidadã é saciada com pão e fubá.

Não houve tempo para saber mais de Socorro. Na volta da Prefeitura, ela contou que em criança fora abandonada, mas uma freira a recolhera. Pôde assim estudar um pouco até se casar. “O que aprendi lá dentro aplico aqui fora”, informou no banco de trás da camionete. Com o pouquinho que estudou, Maria do Socorro Lira Feitosa pôde fazer tudo aquilo naquela manhã: a barriga estava vazia, mas a cabeça não.