Zuenir Ventura foi apelidado “Mestre Zu” pela excelência com que trilhou os vários caminhos do jornalismo. Em mais de sete décadas de atuação, tornou-se exemplar em praticamente tudo o que fez como repórter, editor, chefe de reportagem, diretor de redação, cronista, agitador cultural, escritor e professor. Foi um símbolo de seu tempo, um dos melhores que o jornalismo brasileiro conheceu.
Estreou como repórter já maduro, e encantou-se de tal maneira pela experiência que chamou as demais funções do jornalismo de secundárias. No livro “Jornalismo ‘é…”, de Nemércio Nogueira, editado pela ABI (Associação Brasileira de Imprensa) Zuenir resumiu da seguinte maneira seu encantamento com o papel do repórter:
Zuenir desdenhou de seus feitos e qualidades em vários momentos ao dizer que as funções que exerceu foram obras do acaso.

Em Portugal, cobrindo a Revolução dos Cravos. (Arquivo pessoal)
“Minha vida é toda guiada pelo acaso”, disse em entrevista ao jornalista Tom Cardoso em 2012. “Sou jornalista por acaso. Sou escritor por acaso. Eu saí daquele ambiente [Nova Friburgo, na serra fluminense] por acaso. Comecei como pintor de paredes, depois fui contínuo de um banco, de um bar e de um laboratório de prótese dentária. Finalmente, fui lecionar no primário para poder fazer faculdade à noite de graça. Naquela época você tinha que ir para o Rio para estudar – no interior não tinha faculdade. Fui estudar no curso de Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia (atual UFRJ). Aí foi a descoberta do paraíso. (…)
Sua carreira longeva – chegou aos 95 anos ativo – acumula prêmios, homenagens e reconhecimentos que contradizem sua versão sobre o acaso. Chegou ao ápice do reconhecimento como escritor, ao ocupar a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras. Ganhou os prêmios Esso e Vladmir Herzog pela cobertura do assassinato de Chico Mendes, e venceu o Prêmio Jabuti na categoria reportagem pelo livro “Cidade Partida”, em 1995.
Foi homenageado pela Abraji em 2008 por sua carreira extraordinária. A placa entregue pelo então presidente da Abraji, Daniel Bramatti, resume sua importância no jornalismo: “Ao repórter, que no corpo a corpo com o real, mapeou territórios fragmentados e iluminou uma era em movimento”.
Sua primeira grande reportagem aconteceu aos 57 anos (em dezembro de 1988), quando já acumulava quase três décadas de experiência em cargos de edição e chefia em redações. Estava no Jornal do Brasil, como editor do caderno de cultura – Caderno B. Marcos Sá Corrêa era o diretor de redação e decidiu enviá-lo a Xapuri, no Acre, para investigar o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes. Ele chegou ao destino quatro meses depois do crime, disposto a procurar pistas que tivessem sido ignoradas nas investigações policiais.

Com Oscar Niemeyer. (Arquivo pessoal)
O grileiro Darly Alves e seu filho Darci foram condenados pelo crime dois anos depois, num julgamento que mobilizou a opinião pública do país e teve repercussão internacional. O pai foi o mandante e o filho efetuou os disparos. Zuenir Ventura nunca tinha pisado na Amazônia e não conhecia a história de Chico Mendes quando foi deslocado para acompanhar as investigações.
“Cheguei a Rio Branco sem saber direito quem era aquele fascinante personagem (…) a experiência profissional e existencial que resultou naquela série de reportagens me ensinou muito do Brasil, do Acre e de como, até velho, a gente aprende no jornalismo.
resumiu Zuenir no livro “Jornalismo é…”.

Com os amigos queridos Ziraldo e Verissimo, em foto de Ronaldo Câmara. (Arquivo pessoal)
Zuenir disse em várias entrevistas que a cobertura do assassinato de Chico Mendes foi a mais difícil de sua carreira porque teve repercussão também em sua vida pessoal. Ele adotou por cinco anos o adolescente Genésio Ferreira da Silva, principal testemunha da acusação. O garoto, que vivia na casa de Darly, relatou ter ouvido os criminosos planejarem o assassinato e continuava morando sob o mesmo teto dos assassinos depois de revelar o que ouvira. Por isso, corria risco de morte.
O jornalista passou a temer pela vida do adolescente e decidiu tirá-lo de Xapuri, com a anuência do juiz e do promotor local, e o levou para morar com sua família no Rio de Janeiro. Genésio só voltou para o Acre após completar a maioridade. Sua iniciativa justificável do ponto de vista humano, porém, continha uma contradição com o que o profissional Zuenir pregava a respeito de isenção dos repórteres diante dos fatos:
A interferência para salvar a vida da testemunha não mudou sua convicção sobre a necessidade de distanciamento crítico do jornalista.
“Não viemos à terra para julgar, nem para prender e condenar. Viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, nem promotores. Somos jornalistas. Somos testemunhas do nosso tempo. Não necessariamente de oposição, mas implacavelmente crítica”, declarou em entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2018.
A segunda maior reportagem nomeada pelo próprio Zuenir foi produzida em 1993, quando ainda estava no Jornal do Brasil. Em agosto daquele ano, policiais militares promoveram uma chacina na favela Vigário Geral que deixou 21 moradores mortos. A matança foi em retaliação às mortes de quatro policiais ocorridas na véspera e atribuídas ao líder do tráfico na favela, o Flávio Negão. Os moradores foram executados a sangue frio. PMs encapuzados mataram oito pessoas de uma mesma família, deixando vivas apenas as crianças.

Com Rubem Fonseca. (Arquivo pessoal)
Zuenir pediu licença de trabalho no Jornal do Brasil e teve ajuda de líderes de movimentos culturais que estavam empenhadas em buscar soluções para enfrentar os desafios sociais de uma cidade de imensas desigualdades e de extrema violência. Daquele engajamento social surgiu o movimento Viva Rio. Frequentou a favela por dez meses e teve dois jovens moradores como seus guias naquele território. Um deles foi o sociólogo Caio Ferraz.
No depoimento ao projeto Memória Globo, Zuenir disse que não tinha ideia do que iria encontrar quando chegou à favela pela primeira vez. “Era uma realidade, um universo a meia hora da minha casa, e que era inteiramente desconhecido para mim”. “Cidade partida” foi lançado em 1994 e se tornou referência para a compreensão das mazelas do Rio. É uma das obras jornalísticas mais impactantes sobre a desigualdade entre o mundo dos ricos que habitam a zona sul da cidade maravilhosa, e o mundo dos pobres.
O capítulo 17 do livro – que tem o emblemático título “Do Fundo das Trevas”- traz uma longa entrevista com o chefe local do tráfico, Flávio Negão. Para surpresa do jornalista, ele discorreu com naturalidade sobre seu cotidiano brutal, sobre a expectativa de sua morte precoce e de seu poder sobre a vida e a morte de quem entrava em colisão com as leis do tráfico.
“Como é viver assim tão perto da morte? Você sabe que não vai morrer de velhice, não é?”, perguntou Zuenir a Flávio Negão lá pelo meio da entrevista.
“É. A gente não sabe daqui pra mais tarde como vai ser. A gente não sabe se vai amanhecer”.
“Voce tem medo de morrer?”
“Medo eu não tenho não. Não tenho medo de morrer não”.
“É uma coisa que você encara com naturalidade?”
“Tenho medo é de covardia. Se me matar logo, para mim, tá bom. Pior é ficar torturando a pessoa. Porque, no caso aqui, se a gente for matar, a gente mata ( …) É pra matar? De qualquer forma a pessoa vai morrer, não vai? Então chega e mata logo. À bala e joga fora”.

Na sucursal carioca da Veja, que chefiava, ao fundo segurando um par de óculos. (Arquivo pessoal)
O traficante relata que um morador estava sendo torturado por seus subordinados e ele o livrou da morte. Zuenir lhe pediu, então, para mostrar sua outra face e falar de uma morte que tivesse ordenado. Ele não se fez de rogado. Contou que atirou em uma moradora que havia delatado a localização de um fuzil à policia.
“(…) Levei prum canto e quebrei ela logo”.
“quando você diz quebrou. quer dizer que você matou?”
“Eu matei, é. No caso, eu matei”
“Você nunca sente remorso”?
“A gente fica sentido, né? Mas também tirar a vida da pessoa, vamo dizer, sem ter fundamento nenhum, eu não tiro. Tiro sim, quando tou sabendo o que tou fazendo.”
Em 2015, numa entrevista ao jornal O Globo, Zuenir relembrou o impacto que a entrevista com Negão lhe causou.
“A entrevista foi um horror. Levei alguns dias para digerir o que ele me contou. Às vezes, eu acordava de noite ouvindo a voz dele. Ele contou com naturalidade o que fazia com os inimigos dele. Uma pessoa contando como matava, torturava. Mas ele tinha uma preocupação sincera com a comunidade, disse uma vez que seu sonho era asfaltar toda a favela e colocar luz.”
Questionado sobre se repetiria a experiência, hesitou em dizer se sim ou não. “Depois da morte do Tim Lopes as coisas se complicaram. Acho que dificilmente eu conseguiria falar com um chefe do tráfico com a liberdade com que falei com o Flávio Negão. (…).”
Nove anos mais tarde, em abril de 2024, Zuenir esmiuçou seus sentimentos sobre o encontro com o traficante numa entrevista a seu filho Mauro Ventura e a Isabella Nunes Rosado para o livro “Cidade Partida- 30 Anos Depois” e contou ter sofrido muito “patrulhamento” de colegas jornalistas por ter entrevistado um bandido.
(…) “Tinha gente que achava que eu estava dando voz ao bandido. Essa expressão ‘você está dando voz ao bandido’ era como se eu estivesse assumindo, legitimando e aplaudindo aquelas cenas. (…) Mas eu queria saber o que aquele rapaz pensava. Eu disse: quero saber o que tem na cabeça desse jovem, quase um garoto. Era um ser humano também, mas capaz de tamanha crueldade. Como ele enfrenta isso? Eu me perguntava. Eu estava certo de que era importante ouvi-lo. Então foi uma experiência fundamental.. (…) Eu queria mostrar que esse cara não era um monstro. Era um ser humano como nós, que também poderíamos estar naquele lugar”. Flávio Negão, confirmando o prognostico de Zuenir, não viveu muito. Foi morto em 1995, aos 25 anos, numa troca de tiros com policiais do Bope.
Outro momento marcante de sua atuação como repórter foi a cobertura da primeira Caravana da Cidadania, a viagem de ônibus empreendida por Luiz Inácio Lula da Silva em 1993, de Garanhuns, em Pernambuco, até São Paulo. O trajeto reproduziu a saga vivida pelo próprio Lula na infância, quando sua mãe migrou com os filhos para escapar da fome no sertão. Zuenir acompanhou a caravana pelo Jornal do Brasil. Lula repetiu a estratégia em outros Estados, mais tarde.

Entrevistando o poeta Carlos Drummond de Andrade, em 1980, quando trabalha como diretor da sucursal da Veja no Rio de Janeiro. (Arquivo pessoal)
A primeira viagem impactou fortemente Zuenir quando a caravana foi abordada por uma lavradora, eleitora de Lula: Maria do Socorro Lira Feitosa, de 32 anos e mãe de nove filhos. A mulher, segundo ele descreveu, tinha “a cor de uma índia e a bravura de uma mãe coragem”.
“De repente, nossos dois ônibus foram parados por um grupo de pessoas, numa elevação, diante de um cruzeiro e assistimos à cena. Um palanque havia sido improvisado com a ajuda do carro de som da caravana e do alto falante saía uma voz feminina com uma determinação incomum. ‘Nóis num tá aqui por boniteza. Nóis tá aqui por precisão. A gente tamus passando fome.’”
A reportagem sobre Maria de Socorro está no livro “Viagem ao Coração do Brasil”, uma coletânea de textos de vários autores, como Fernando Gabeira, Ricardo Kotscho e Leonardo Boff. Uma versão condensada da mesma reportagem foi publicada no livro “Minha Memória dos Outros” ( José Olympio Editora).
Zuenir nasceu em 1º de junho de 1931 em Além Paraíba, Zona da Mata de Minas Gerais. Ainda bebê, foi com a família para Ponte Nova, também em Minas, onde viveu até os onze anos. Em 1942, a família se mudou para Nova Friburgo, no Estado do Rio. O pai era pintor de paredes e chegou a iniciá-lo na profissão. Como a família tinha poucos recursos financeiros, começou a trabalhar cedo: foi faxineiro em um bar, contínuo de banco, balconista em uma loja de camisas e professor no ensino primário. Aos 23 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar Letras Neolatinas na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi professor universitário por mais de 40 anos, em paralelo com a carreira jornalística.

Durante conferência da Academia Brasileira de Letras em 2019. (Divulgação/ABL)
Ele ingressou no jornalismo sem planejar. Hélcio Martins, um de seus professores do curso de Letras Neolatinas, era chefe do arquivo da Tribuna da Imprensa, jornal de Carlos Lacerda, e lhe deu um emprego de arquivista. Não lhe passava pela cabeça ser jornalista. Ele conta, no livro “Minhas histórias dos outros” (2021), como foi a passagem do arquivo para a redação da Tribuna da Imprensa.
“Não queria outra vida, até que Hélcio, como se estivesse sugerindo, ordenou: ‘Você precisa escrever para jornal. Não há nada melhor para o estilo.’”
Seu primeiro texto na Tribuna da Imprensa, publicado em janeiro de 1960, foi o obituário de um de seus ídolos literários, Albert Camus. A partir dali, ele se rendeu ao jornalismo. Em outubro daquele ano, foi estudar no Centre de Formation des Journalistes em Paris como bolsista e enviava reportagens esporádicas para a Tribuna. Por iniciativa própria, pegou um trem de Paris para Viena para tentar cobrir o que na época foi considerado o “encontro do século”, a reunião entre os dois líderes da Guerra Fria, Nikita Khrushchev, secretário-geral do Partido Comunista da antiga União Soviética, e John Kennedy, presidente dos Estados Unidos. Zuenir não tinha credencial e o máximo que conseguiu foi fotografar com a Rolleiflex que levava a primeira-dama dos EUA, Jacqueline Kennedy, quando descia de um carro em frente ao hotel da delegação. Aparecia a calcinha, e a foto não foi publicada.
No final de agosto de 1961, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, os militares não queriam permitir que o vice-presidente, João Goulart, assumisse a Presidência por ser de esquerda. Ele estava na China em viagem oficial e não sentiu segurança de voltar imediatamente ao país. Fez uma escala em Paris. Zuenir o acompanhou nos três dias em que permaneceu na cidade, enquanto aguardava notícias do desenrolar da crise, e serviu de intérprete para ele nas entrevistas com os jornalistas franceses.
A primeira crônica de gênero jornalístico de Zuenir é do final de 1961: “Como não ser provinciano em Saint-Tropez”, na revista Senhor, publicação cultuada pela qualidade dos textos e pela sofisticação. O texto resultou de um passeio dele à badalada Côte d’Azur, antes de retornar ao país, e foi ilustrado com desenhos do cartunista Jaguar. O umbigo feminino – até então um item pouco exposto nas praias brasileiras – era o destaque da coluna:
“O umbigo – ah, o umbigo! É a pedra de toque da estação. Nada mais sensacional para a estação que um umbigo, esta pequena joia (…). Essa moda parece que foi inventada para mostrar a variedade que existe de umbigos, matéria que nunca foi motivo de atenções (…).”

Em Brasília, durante a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em 2012. (Elza Fiúza/Abr)
De volta ao Brasil, em 1962, tornou-se professor no curso de Jornalismo da Faculdade Nacional de Filosofia (futura Escola de Comunicação da UFRJ) e participou da fundação da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI). Sua trajetória na imprensa ao longo dos anos 1960 e 1970 ocorre principalmente em revistas: depois de rápidas passagens pelos jornais Correio da Manhã (1963) e Diário Carioca (1965), trabalhou em O Cruzeiro, Fatos & Fotos e Visão, até ser preso no final de 1968, após a promulgação do AI-5 que recrudesceu a repressão no país. Passou três meses preso. Dividiu a cela com o psicanalista Hélio Pellegrino. Os dois conversavam compulsivamente e ficaram grandes amigos. Em 1969, escreveu, com Dorrit Harazim e Norma Freire, “Os Anos 60: A década que mudou tudo”, série de 12 fascículos editados pela Veja e depois publicados em livro pela editora Abril.
“Durante os longos anos da ditadura militar, Zuenir Ventura trabalhou em jornais e revistas, no Rio de Janeiro, onde construiu sua carreira e participou de grupos de discussão político cultural na cidade que podem ser compreendidos como núcleos de resistência ao regime”, destaca o professor Felipe Quintino na tese de doutorado -“Zuenir Ventura – Jornalismo e Testemunhos, interpretações da Cultura”, na Escola de Comunicações e Artes” da USP, em 2017.
Segundo Quintino, Zuenir aproveitou todas as brechas possíveis de resistência à censura imposta pelos militares após o Ato Institucional nº 5, mas nunca fez política partidária. Foi atuante nos Ciclos de Debates da Cultura Contemporânea realizados no Teatro Casa Grande, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Os encontros, que reuniam 1.200 pessoas por sessão, foram um marco na resistência de artistas e intelectuais à ditadura militar. A esquerda mal-humorada qualificava os adeptos daquelas manifestações de esquerda festiva. Zuenir não se fazia de rogado. Nas palavras dele “a alegria também é revolucionária”.
Uma das características de Zuenir é o texto claro, simples, envolvente, que parece fácil, mas que foi sendo moldado desde a faculdade. Quando publicou “1968 – o ano que não terminou”, alguns leitores fizeram comparação com o estilo e as características do Novo Jornalismo (New Journalism), gênero que ajudou a renovar e enriquecer o jornalismo norte-americano nos anos 1960 e 1970 com o uso de recursos de técnicas literárias. O autor declarou ter sido mais influenciado pelos europeus:
“(…)Toda a minha influência é muito mais europeia, francesa, do que americana. Foi mais a minha formação literária que contribuiu para isso”, disse na entrevista a Felipe Quintino.
Mesmo identificando suas raízes na cultura e no jornalismo francês, seus três livros-reportagem (“1968”, “Cidade Partida” e “Chico Mendes”) fazem parte da curta lista de exemplos, no Brasil, de jornalismo literário, que Zuenir prefere chamar de “jornalismo de reconstrução”. Nos agradecimentos finais de “1968”, ele aponta suas fontes de “inspiração e sugestão”:
“Não há como deixar de registrar uma dívida interna para com alguns modelos desse, digamos, jornalismo de reconstrução, gênero no qual, se não fosse a pretensão, gostaria de incluir o meu livro. São hoje fontes de inspiração e sugestão trabalhos como ‘A sangue frio’, de Truman Capote, ‘O assassinato de Lorca’, de Ian Gibson, ‘A rive gauche’, de Herbert R. Lottman, e o admirável ‘Olga’, de Fernando Morais, para só citar alguns.”
Os quatro livros citados têm em comum a reconstrução de fatos e momentos históricos com rigor jornalístico e texto literário. A ideia de “reconstrução” remete à pesquisa histórica, parte fundamental dos livros de Zuenir. No depoimento que deu para o programa Memória Globo, em 2011, Zuenir tratou das diferenças entre o interesse jornalístico por investigar o passado com o trabalho dos historiadores.
“Eu acho que o jornalismo não pretende, ou pelo menos não deve, concorrer com o historiador. Eu, pelo menos, nem imagino, não tenho a menor pretensão. (…) É um trabalho (do jornalismo), enfim, humilde, modesto de preparar um pouco de matéria-prima, fornecer um pouco de matéria-prima para o historiador realmente preparar e aprofundar.”

Na redação da Veja no Rio de Janeiro, em foto de Ricardo Chaves.
A dica de Zuenir para os jovens repórteres é a mesma de outros grandes jornalistas: ser humilde.
“Nós jornalistas temos um pecado que nos cerca a todo momento: a arrogância. Como temos o poder da informação, isso costuma subir à nossa cabeça, nos fazer achar que somos donos dos acontecimentos, porque temos o que as outras pessoas não têm. É preciso humildade. Não como mérito e virtude, mas por sabedoria e esperteza porque nesta profissão quebra-se a cara constantemente. O furo que você dá hoje pode levar amanhã.”