SOBRE
O PROJETO
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Zuenir
Ventura

A Difícil travessia do Vietnã

Zuenir Ventura
A Difícil travessia do Vietnã

Flávio Negão é entrevistado por Zuenir Ventura e pelo sociólogo Caio Ferraz em seu esconderijo, na favela Vigário Geral

(Texto extraído do livro ‘Cidade Partida’ e cedido à Abraji pelo autor)

Me senti na obrigação de dizer a Flávio Negão que aquela conversa gravada não seria um interrogatório e sim uma entrevista — o que ele dissesse não teria valor jurídico.

— Você pode ser franco que nada pode lhe ocorrer por causa dessa gravação.

Eu temia, como já havia confessado a Caio, que ele fosse posar de bom moço: “Não matei ninguém, não sou traficante, não sou bandido”, essas coisas. Para isso, para desvendar suas opiniões e não as minhas, eu estava disposto a não polemizar com ele e muito menos a contestar suas ações, pelo menos durante a entrevista.

Como se verá pelas respostas, ele foi mais franco do que eu jamais poderia imaginar.

Você nasceu aqui?

— Nascido e criado aqui dentro. 

Estudou também aqui?

— Não, estudar era lá fora, sempre lá fora.

Seus pais são daqui ou vieram de algum lugar? 

— Vieram de Lucas.

Eles são cariocas

— São. Os dois.

Como foi sua infância?

— Era crente, lá em casa todo mundo seguia a igreja. Até uns quinze anos (rindo) minha família empurrava a gente pra dentro da igreja.

Qual era a igreja?

— Testemunha de Jeová. Até hoje ela não larga.

Logo Testemunha de Jeová, que é a mais rigorosa

— É, é isso mesmo. Não pode nada. É um pobrema. 

Foi uma infância feliz?

— A infância da gente foi legal. Ficava à vontade, curtia pra caramba. Na época da gente não é como hoje.

Quando você começou a trabalhar?

— Desde os onze anos eu já trabalhava. Aqui dentro eu vendia verdura. A gente trabalhava na tendinha, tinha um comércio. Minha mãe nunca deixava a gente à toa. Tinha cinco. Um ia estudar, outro ia pro Senai. Tinha eu e a garota que tomava conta da tendinha. A gente pegava verdura e rodava dentro da favela pra vender. Fomos indo. Com onze, doze anos, a gente fomo trabalhar na oficina de meu tio. Fiquei até uns quinze anos. Depois dediquei mais à escola. Lá pruns dezessete anos, consegui arrumar um emprego numa fábrica de fazer livro. Trabalhei quase uns dois anos nessa fábrica. Depois fui mandado embora. Depois meu pai conseguiu uma lanchonete e me botou junto com ele.

Fora daqui?

— Lá na cidade, na Rio Branco. Fiquei uns nove meses trabalhando com ele. Mas depois a loja faliu e aí não consegui mais emprego. Fiquei pelejando, pelejando e nada. Aí foi onde que eu entrei pra essa vida.

Que idade você tinha?

— Eu entrei nessa vida em 88, com dezenove anos. 

Caio: — Mas você já tinha um irmão

— Tinha um irmão primeiro do que eu. Ele tinha trabalhado na lanchonete, saiu e rodou em 88, quando eu entrei. 

Caio: — Estava roubando?

— É. Foi roubar uma fábrica, aí virou. 

Ele foi preso ou foi morto?

— Foi preso. Ele tava precisando das coisas, pagar advogado, tava passando necessidade. Ele lá e a gente aqui afora tentando comprar as coisas. Meu pai, né, só ajudava ali na despesa por mês. Minha mãe era crente, mas nunca abandonou a gente. Até um passarinho na época eu vendi pra comprar coisas pra eles, meu pai quase me matou. Um passarinho! Pô, falou pra caramba. Fui me revoltando, vi que tava precisando, aí fui invadindo a vida.

Como é que foi sua entrada nessa vida?

— Os cara vai levando a gente pra roubar um carro, depois rouba uma loteria, uma padaria, rouba uma farmácia, posto de gasolina. Eu nunca roubei foi ônibus, porque eu não queria roubar trabalhador. Ônibus só tem trabalhador. Daí pra frente, banco, banco, banco. E aí vai pegando fama. Um amigo meu que tá preso e que tinha uma boca de fumo me ajudou muito. 

Você tomou o poder logo?

— Não. Aí eu fui indo. Vamos dizer: a boca aqui era do Chiquinho Rambo, mas lá fora a gente tinha a da gente. Era eu e o Adão lá fora. Não tinha envolvimento com ele aqui dentro. 

Você teve um tempo fora daqui, não foi?

— Foi. Mas a gente tinha uma amizade perante a malandragem daqui. Eu era cria daqui. Mas os cara daqui ficava dependendo só da boca. O que entrasse ali pra eles tava bom. A gente já não pensava assim: a gente não vai ficar esperando entrar dinheirinho em boca de fumo. A gente corria atrás também, entendeu? Uns ficavam bolados porque a gente chegava com muito dinheiro, entrava aqui pra favela com malote carregado. “Pô, e não me leva nada?”, eles reclamavam. Por que não foram? Se tá sabendo que tem um assalto, tinha que tá ali cedinho. 

Caio: — Por isso eles não participavam da divisa?

— Não participava não. A não ser o Mica. Pro Mica a gente tirava.

O Mica era o quê?

— Mica é o meu sócio agora. Na época ele era dono sozinho. Quando botou os outros dois, um que tava foragido e o outro que morreu, foi onde que berimbolou tudo. Ele recebendo o bagulho sozinho até que tava maneiro, mas depois que passou a botar os outros dois, aí berimbolou.

Aí você se mandou?

— Aí a gente saímo da favela. 

Isso quando, em 90?

— Isso foi em 93. Não, foi em 92. 

Caio: — Amigavelmente?

— Não. Saímo um grilado com o outro. A gente saímo cabrero. Tinha um amigo da gente que eles queria matar. O cara era gerente da gente. Foi aí que começou tudo. Eles matando o cara, a gente tinha que tomar uma atitude, porque o cara trabalhava pra gente, o cara era gerente da gente. Antes de qualquer coisa, eles tinha que dar uma ideia à gente. Mas eles mataram o cara e não falaram nada pra gente. Usando o meu nome e o nome do Criolo (Adão), que tá preso, eles mandaram chamar o cara, que chegou e perguntou: “Cadê o Negão e o Adão?”. Aí eles falaram: “Negão e o Adão nada, rapaz, quem tá aqui sou eu”.

Liquidaram com ele?

— Acabaram com o cara. Só ficou uns pedaços espalhados, na linha do trem.

Vocês foram expulsos pelo bando de Macaquinho, mas depois voltaram, não foi?

— A gente sofremo um bom pedaço. 

Mas acabaram invadindo a favela?

— A gente ficamo cinco meses ali fora. Se a gente continua mais um mês, todo mundo morria. Polícia cercava de uma tal maneira que a gente não tinha mais pra onde correr. Que morador já tava com tanto medo que fechava as portas, a gente não tinha nem pra onde mais correr.

Como é que foi essa retomada?

— Essa retomada foi num belo dia de Carnaval, numa sexta-feira. Eles sempre mandava recado, eles era abusado. A gente só ficava quieto, a gente não é de ficar mandando recado. Em vez de mandar recado, é melhor ir logo. Eles fazia o contrário: “Que o Adão virou Eva e o Negão virou neguinho”, eles falava. Eu dizia: “Fala cum eles que a gente não vai entrar na favela, não”. E, pelo Criolo, a gente não entrava mesmo. Mas eu, pô, eu tinha família aqui dentro. Eles chegava perto da família e dizia: “Nós vamo pegar ele e cortar a cabeça dele”. Eu já não guentava mais. Mexer com família aí fica um bagulho chato. 

— Aí, nessa sexta-feira, você resolveu?

— O Criolo viajava muito. Quando ele chegou de viagem numa terça-feira, na semana de Carnaval, eu falei: “Se tu não entrar quarta-feira, nem que eu entre pra mim morrer, mas eu vou entrar lá dentro”. Aí os cara que tava comigo também falou: “Eu entro também”. Aí o Criolo falou: “Quarta-feira eu não entro não, mas sexta-feira a gente vai entrar”. Eu falei: “Vou esperar até sexta-feira. Se tu não entrar, a gente vai entrar”. Quando foi na sexta-feira a gente entramo.

— De noite?

— Duas horas da manhã. Eles não tava nem esperando. Mas a gente tinha como apanhar eles. Porque tudo que acontece aqui, a gente sabe de tudo. A gente só não descobre o X-9, mas o resto a gente sabe de tudo.

Entraram quantos homens?

— Eles falaram que tinha cem homens, mas só tinha 23 cabeças.

Falou-se na época que vocês liquidaram cinquenta

— É, falaram (rindo), mas a gente só matamo uma certa quantidade que tinha envolvimento no crime. A gente não matamo pessoa inocente não. A gente tinha as cabeças certas escrito no papel: quem ia morrer e quem não ia morrer. Tinha gente que não tinha nada a ver, que tão aí comigo.

Gente da turma dele?

— É, que tá comigo hoje. E tá melhor do que tava na época deles.

Você escolheu alguns?

— Eu escolhi o que eu aproveitava, que eu sabia que hoje não ia me criar pobrema.

Caio: — Mica foi um deles, né?

— Tem Mica, tem Galileu, Cimar, Loro, tem muita gente. 

O chefão fugiu?

— Foi embora. Um a gente pegamo, o outro conseguiu sair fora.

Vocês mataram quantos, afinal

— A gente matou sete pessoas. 

Falaram em trinta!

— Trinta não, foi sete. O resto ficou ca gente. Teve uns dez que foi embora. Teve Biludo, Macaquinho, Mumu, Marquinho. 

Caio: — Aí o João, irmão do Biludo, veio pro lugar dele, né?

— Isso. O Biludo saiu e o irmão dele, João, trabalha comigo hoje, é gerente.

Esse Biludo sumiu?

— Esse Biludo era um dos gerentes também daqui. Se ele fica na dele, ele tava ca gente até hoje. Mas ele foi na onda do outro. Inclusive o João, já falou que se pegar ele aqui vai cortar a cabeça dele. E é irmão, hein!

Caio: — Todo mundo disse que o Comando Vermelho teve participação. Dessas 23 cabeças, veio alguém de outros lugares?

— Nessa guerra a gente não queria envolver ninguém. O único que veio de fora foi o Gordinho, que é lá da Providência. Mas a gente tem amigo em Manguinhos, Borel, Varginha, Zinco. A gente tem muito contato. Se a gente mandar um toque — “pô, tô precisando de dez cabeças” — vem logo. Mas no caso a gente não queria envolver ninguém.

Tem gente que diz que o Comando Vermelho não existe, só dentro das cadeias.

— Existe, existe sim. Fora e dentro da cadeia. 

Você é ligado ao Comando?

— Eu sou ligado a tudo. Se tiver algum pobrema, vamo dizer, fulano de tal área tá vacilando, o cara não tá agindo certo, a gente vamo lá. Que a gente tem que corresponder com os que tá lá dentro. Porque os que manda mesmo, eles tão lá presos. Então eles precisa da gente aqui fora. Então se precisar de alguma coisa, se eles pedir a gente tem que fazer. No caso, o Adão, ele representa a gente aqui. Ele é boa pessoa, qualquer coisa que ele pedir a gente faz pra ele.

Mas o Adão é porque é seu amigo, não é porque é Comando Vermelho, não?

— É porque é meu amigo. Não tem nada de Comando, é porque é amigo da gente. Mas tem o lado do Comando Vermelho também.

Caio: — O Comando é uma espécie de compadrio, né, funciona para manter uma estrutura de assistência aos amigos, é isso?

— É. Tem que existir. Aí do lado (Parada de Lucas) é Terceiro Comando, aqui é Comando Vermelho. Tem que ter a facção. Se falar que aqui não é nada, eles vêm pra tomar.

O crime organizado então não passa de relações de amizade, é isso?

— Isso. De amigos. Tem que ter uma amizade já antiga. 

Não é uma organização que dá ordens e coisa assim? 

— Não, não. O que vale é a amizade. Se a gente puder fazer pela aquela pessoa que já fez pela gente, a gente vai fazer.

Caio: — Quantas pessoas estão envolvidas com o tráfico no Rio?

— Ah, tem muitas. Se botar na ponta do lápis! É um quartel, mané. É muita gente.

E todos muito bem armados, né

— E bem armados!

Caio: — Uma vez eu li que o tráfico no Rio envolvia 150 mil pessoas, direta ou indiretamente. Chega a esse número? 

— (Rindo) Deve passar. Se juntar no geral, ih!, tem muito vagabundo, tem muita gente.

Caio: — Qual é o critério pra ser Comando Vermelho ou Terceiro Comando?

— A diferença, vamo dizer, um tem rixa do outro. A gente trata eles de alemão. Eles tem a facção deles e a gente tem a nossa. Mas não tem mais guerra. Isso aqui dia de domingo era o fim do mundo, né não, Caio?

Vocês fizeram a paz depois da chacina?

— Depois da chacina, isso mesmo. Os policiais já tava botando que foi ele, o vizinho aí do lado, que fez isso aqui. Então ele reuniu os morador, pediu pra vir pra reinar a paz de novo. 

Você teve algum encontro com ele?

— Não, não tive. Eu tive assim recado, papel. Contato com ele pessoalmente eu não tenho.

É difícil?

— Ah, é. Se eu tenho contato com ele, aí berimbola. Eu posso até ir lá, não tem nada, mas pra mim, pelo outro lado, vão dizer: “Foi lá conversar com o cara!”. Aí vai ter vazação de papo, conversa fiada.

A polícia disse na época que você era uma pessoa fundamental pra esclarecer a chacina, porque no dia anterior, na praça Catolé do Rocha, você e seu grupo assassinaram os quatro PMs que teriam vindo mineirar. A chacina teria sido uma vingança.

— Não foi não. Isso aí foi parada deles mesmo. Eles é que fizeram. Foi parada de acerto de pó. Ia chegar mercadoria pra cá e eles tavam esperando.

Essa mercadoria era pra você?

— Era pra cá. Mas sendo que tinha mais gente envolvida, mais policiais envolvidos. Sendo que uns vieram na frente dos outros. Eles sabiam o horário, sabiam tudo. Eles vieram na frente pra apanhar, à paisana.

Caio: — Pra dar um bote nos outros?

— Não, pra dar um bote na mercadoria. Os quatro que tavam aí fora, tavam na frente dos outros. Uns dez tavam sabendo que vai chegar. Uns quatro sabia que é no horário de nove horas, mas os outros tavam comendo bola, pensando que é onze horas. Os caras de nove horas saíram e ficaram esperando. Quando os outros chegaram, viram logo: “Vocês vieram pegar o bagulho na nossa frente”. Foi onde berimbolou.

Caio: — Mas quem quebrou os quatro, foram vocês?

— Não, foi os policiais mesmo — os que descobriu que os quatro vieram pra dar o bote na mercadoria.

Caio: — Mas vocês estavam na praça, não

— Não, esse dia a gente não tinha saído não. 

Caio: — Você, não, mas tinha gente daqui lá

— Tinha, isso tinha.

Caio: — Deve ter sido por isso que rolou o papo que… 

— … que a gente tava envolvido. Tinha gente, mas ligado mesmo na morte não tava não.

E a mercadoria, vocês conseguiram recuperar?

— A mercadoria veio (rindo muito), mas veio por outro caminho. Eles ficaram bolado. Eles tava esperando, tava esperando e nada. Eles ficaram naquele clima: “Cadê a mercadoria?”. “Já passou?” “Não chegou?”

O que aconteceu afinal?

— Aconteceu que a gente mudou a rota. A gente fala no telefone pra eles ouvir: “Traz pela rua da praça, que é tranquilo”. Mas aí já tem outro trajeto pra vir.

Você fala de propósito para a polícia ouvir?

— Isso, porque telefone é tudo grampeado, não tem jeito, mesmo os celular.

Caio: — Na verdade, esses policiais já estavam acostumados a dar bote?

— Isso aí, cara! Essa semana mesmo tem uns cinco presos nossos lá que eles apanharam, mas sendo que dois veio embora e três ficou. Por cabeça eles cobra 100 mil e, se for um gerente, eles apanha 300 mil.

300 mil o quê, dólares?

— Não, 300 mil cruzeiros. Eles dizem: “Manda vir trezentos que a gente solta”. A gente manda e eles soltam.

Você, se for preso, vale quanto, 1 milhão?

— Pô, se eles me pegarem eu não valho nada, eles vão me quebrar, porque eu já tou cheio de fama. Eu já avisei pro meu pessoal: “Não manda nada não, que eles pegam o dinheiro e me quebra”. Eles tão revoltado comigo porque eu não dou oportunidade pra eles não. Se bater de cara, barulha eles ou barulha eu. Tem que ficar alguém. A gente nunca teve oportunidade de bater de cara assim; já teve, mas ninguém ficou ferido, da gente nem deles. Só osso quebrado, mas ninguém ficou baleado.

Quando?

— Vira e mexe a gente esbarra com eles.

Caio: — Uma das vezes foi naquele baile do dia 30 de outubro, no sábado?

— Foi. Teve o tiroteio, mas aí eles se mandaram.

E essa história de que você libertou o bandido Inseto numa delegacia?

— Isso é conversa fiada. 

Você conhece ele?

— Quem, esse tal de Inseto? Conheço nada. Isso eles bota mais pra queimar. Eles tão querendo um meio pra entrar na favela. Depois que eles fizeram aquele bagulho, eles quer entrar. Mas eles só vai entrar se o Nilo Batista liberar. Aquele bagulho abalou, aquela chacina.

Como é que foi a chacina?

— Foi no domingo, assim que acabou o baile. Ao meio-dia, o safado do Cláudio Russão ligou pra cá e teve um gerente meu que atendeu o telefone: “Pode avisar que meia-noite eu vou entrar”. Eu soube e disse: “Se entrar, a gente barulha eles também”. Aí a gente ficamos esperando: o baile acabou, o pessoal veio vindo. Mas eles já vieram da praça Dois arrebentando: matou até um moleque lá.

Caio: — Vocês já estavam vendo eles?

— Não, mas alguém avisou: “Tem um grupo lá na praça Dois, tão quebrando tudo, tudo polícia”. Eu disse: “Mané, esses caras vão entrar”. Daí a pouco eles vieram, mas não vieram por aqui não, que aqui a gente tava esperando, eles vieram lá pelo final da Brasília, lá pela Linha Vermelha. Aí começou: pá, pá, pá. Eu falei: “Ó, já tão entrando. Espalha todo mundo”. Aí todo mundo ficou espalhado e ficamos um bom tempo trocando tiro com eles. O que tinha com a gente foi tudo neles. Depois que acabou tudo eles começaram. Se eu soubesse que eles iam fazer aquilo, a chacina, eu tinha matado uns dez deles. Eles tavam de um lado do muro e eu tava do outro. Eu não tinha bala, não tinha mais nada, só tinha bomba.

Bomba é granada?

— É, eu tava cheio de bomba. Se eu soubesse que eles tinham feito isso com os morador, eu tinha matado pelo menos uma meia dúzia.

Caio: — Quanto tempo durou o tiroteio, uma hora?

— Ih, mais de uma hora. Um troca-troca danado. Nisso até escutei o grito do finado Amarildo e do Clodoaldo, eles tavam ali. Aí eu falei, mané, vai embora pra casa, não fica aqui. Se eles pegarem, eles vai matar. Amarildo disse: “Não, vou até ali no meu pai”. “Não vai não, mané, eles já tão cercando a gente.”

Caio: — Por que você resistiu a jogar uma granada?

— Porque eu achei que eles tava só batendo, espancando. 

Caio: — Você viu a cara de algum deles?

— Eu vi todos eles, mas eles não me viram. Eu podia ter matado assim uns seis. Eu podia até jogar as bombas e morrer, mas eu ia levar uma boa quantidade deles. Eu tava do lado do muro e eles do outro, conversando. “Vamo embora, Janete”, um falou. Era inclusive uma mulher lora. Tava cum capuz, mas eu vi o cabelo dela, era grande, cabelo loro.

Uma coisa não ficou muito clara: por que vocês não defenderam a comunidade?

— Não, a gente lutamo sim. Achamos que a finalidade deles era só a gente. Era lá e cá.

Quando eles se juntaram na quadra, você diz que dava pra pegar eles. Não pegaram por quê?

— Dava. Mas eu não sabia que eles tinha feito aquilo com os morador. Se eu jogo a bomba, eu não ia jogar uma só. Eu tava na bolsa com cinco. Eu podia jogar uma atrás da outra. Da onde eu tava (excitado), eu tava num basculante assim, de cima, e eles tudo embaixo, pra mais de trinta. O pessoal que tava comigo não tinha perna pra subir na cama e abrir o basculante. Eu abri na moral, eles tudo assim. Tinha como dar a volta, pelo quintal, eles não ia me ver que tava muito escuro. As bomba já tava só ca trava. Era só ir apanhando e jogando. Ia acabar cum eles, mas depois a gente ia ganhar a fama que foi a gente que matou os policiais. E se eles não tivesse feito aquilo com os morador? A gente é que ia ganhar a culpa. Iam dizer que a gente matamo policiais dentro da favela. “Tá vendo? Traficante faz isso, isso e isso, mata policiais, joga bomba e tudo!” Só depois é que a gente vimo o resultado.

Caio: — Depois que eles saíram? 

— Depois que eles saíram.

Caio: — Qual foi a lógica da chacina, se vocês dizem que não mataram os policiais?

— A bronca é essa. O pobrema todo taí. Porque todo mundo tava pensando que foi a gente. Toda matéria falava: “A quadrilha de Flávio Negão matou quatro pm, fez isso e aquilo”. E não foi a gente.

Mas eles sabiam que não tinha sido vocês. Que que eles queriam, um pretexto?

— Um pretexto pra entrar na favela, vamo dizer, pra acabar com todo mundo. Eles tava com raiva porque a quantidade de pó era muita, valia muito dinheiro.

Os jornais disseram na época que eram 87 quilos, da pura, é isso mesmo?

— Não. Era 67 quilos. Pra quatro! Os outros ia ficar voando.

Caio: — Rolou um papo na época que eles poderiam ter vindo para desestabilizar o governo do estado.

— Eles tem uma bronca danada mesmo. Eu tenho aquele radinho de escuta e ouço eles xingar muito. O Nilo Batista sofre. Nilo Batista, Brizola. Eles pensa que o Brizola apoia a bandidagem. E o caso é que não apoia. É tudo pra queimar o Nilo Batista. Eles são safado. Polícia é uma praga. Quando eles vai fazer a greve deles, eles diz que só tem revólver podre, enferrujado. É mentira. Os vagabundo chega aqui tudo de fuzil ar-15. Eles tem arma tudo pesada, que nem a nossa.

Por falar nisso, que arma é essa aí atrás, AR-15? 

— É, ar-15.

É a melhor arma que tem? 

— É, uma das melhor.

É a que você mais gosta? 

Caio: — Quantos tiros ela dá? 

— Tem pente até de noventa.

Noventa tiros por minuto?

— Por minuto. Num minuto sai tudo. 

Você já atirou muito com essa aí?

— Essa aí eu tenho uma confiança nela danada (rindo com carinho). Eu não largo por nada. Só quero do meu lado. 

Caio: — Ela fura uma parede?

— Rebenta.

Você já atirou muito com ela?

— Já. Essa aí, eu já dei muito tiro com ela. 

É de estimação?

— Ah, é. Essa é antiga. Dois anos que eu tenho ela. 

Quanto é que custa um AR-15?

— Quatro mil dólares. Se a gente fosse comprar lá, é 2 mil dólares. A pessoa que vai apanhar lá, já chega aqui e vende pra gente por 4, 5 mil dólares. Já ganha 2 mil ou 3 mil dólares em cima de uma peça.

É a mais cara que tem? 

É a mais cara que tem

A Uzi é mais barata?

— É. Dois mil dólares.

Uzi é metralhadora?

— É metralhadora, aquela pequenininha.

Caio: — Qual a diferença entre o AR-18 e o AR-15? 

— Não tem ar-18 não. Tem M-16, ar-15, M-14, só. 

Esse M-16 é aquele do Exército americano, não?

— É. Fuzil também. Mesmo calibre daquele ali (apontando para o ar-15 que está na cadeira). Só que a fabricação é outra. Aquele ali é ar-15, mas é o mesmo calibre da M-16. A bala é a mesma coisa. O que muda é o modelo da arma, onde foi fabricada a arma.

Pistola você não usa? 

— Tem vez que eu ando. 

Qual é a pistola?

— Nove milímetros.

É a sua preferida? 

— É, nove milímetros é a melhor.

Essa arma (AR-15) é pesada, não? Quantos quilos deve pesar?

— (Rindo) Sei lá, pesa uns oito quilos e tanto, eu já tou até acostumado que nem sinto mais ela. Boto nas costas e vou. 

Você tem boa pontaria?

— (Rindo) A gente costuma acertar. 

Vocês treinam onde?

— A gente jogamo uma lata dentro do mangue, ela vai descendo e a gente atirando. Não erramo uma.

Caio: — Em Lucas eu não vejo as pessoas tão armadas. Em alguns morros do Terceiro Comando, também. Há uma orientação do Comando Vermelho para andarem ostensivamente armados?

— Não. A gente anda mesmo porque, vamo dizer assim, necessita de andar armado. Eu não posso largar aquilo ali não. Eles querem me segurar. Mas eu não vou dar essa chance pra eles. Vamos dizer, se eu dormir aqui e eles entrar, pode ter duzentos homes, até mil, não adianta. Se eu puder matar eles, eu vou matar. Botar algema em mim, não vou deixar. Porque esses crimes que aconteceu — quatro no Jardim América e esses quatro aqui — vão querer jogar em cima de mim.

Caio: — Vai dizer que não tiveram nada com o crime do Jardim América?

— Nada, nada. O negócio é que teve um que veio minerar aqui dentro. Um não, veio dois. O Rosivaldo trabalhava pra gente, tava com um fuzil como aquele ali (ar-15), deu de cara com eles. Aí, pum!, pegou um, matou. Sendo que na frente deu com os outros policiais e nesse troca-troca ele também ficou baleado. Depois os policiais encontrou ele e matou ele. Que que eles fizeram? Pegaram o policial aqui de dentro e botou lá fora, dizendo que a gente arrastamo o cara de dentro do ônibus e matamo dentro da favela. Brincadeira. Eles entraram pra minerar e deram essa falta de sorte. Nesse dia esse policial que morreu não tava de serviço. Eles foram na casa do cara e falaram pra mulher: “Chama fulano aí que vai ter um trabalho e ele vai ter que participar”. A mulher do cara depois soltou os bicho: “Vocês foram apanhar meu marido em casa pra morrer”. Eles explicam lá no batalhão assim: “Os traficantes sequestraram ele dentro do ônibus e levaram pra dentro da favela”.

Você se sente seguro?

— A gente tem gente do lado da gente caguetando a gente. Tem até telefone celular, o vagabundo, o X-9. A gente entramo aqui agora, entendeu, e a gente não sabe. Tem gente que viu a gente entrar aqui. Se eu quiser almoçar, uma coisa assim, tem que ser questão rápida, entendeu, bagulho rápido. A gente não pode demorar. Se eu for na casa de uma tia minha, na casa de minha mãe, eu tenho que ver ela rápido, no mesmo pé entrar e sair. Porque não pode demorar.

Como é viver assim tão perto da morte? Você sabe que não vai morrer de velhice, não é?

— É. A gente não sabe daqui pra mais tarde como vai ser. A gente não sabe se vai amanhecer.

Você tem medo de morrer?

— Medo eu não tenho não. Não tenho medo de morrer não. 

É uma coisa que você encara com naturalidade?

— Tenho medo é de covardia. Se me matar logo, pra mim tá bom. Pior se ficar torturando a pessoa. Porque, no caso aqui, se a gente for matar, a gente mata. Mas chegar ali com uma faca e ficar, eu já não gosto desse tipo de coisa. É pra matar? De qualquer forma a pessoa vai morrer, não vai? Então chega e mata logo. À bala e joga fora.

Caio: — Você resolve tudo aqui dentro?

— Tudo é a gente que resolve. Qualquer coisa que robar, até um passarinho, vem dar queixa. Mesmo que a gente não descobre, fica sabendo.

Como é a história daquela moça que roubou o bujão? 

— Ela não conseguia carregar o bujão, porque tem pobrema de pulmão, aí o cara pessoalmente foi lá e pegou o bujão. O pessoal aqui do movimento tomou uma atitude errada, porque não escutou o cara falar. Tinha que deixar o cara falar. Mas tudo cheirado — na hora não tinha ninguém —, aí espancaram o cara. Ele tinha comprado o bujão, não tinha robado, e foi apanhar. A gente pagamo a despesa todinha do cara. Um médico que vem sempre aqui dentro, trabalha na farmácia, mandou os remédio. Compramo todos os medicamentos e demo pro cara. Ele tá bem, tá na favela. Mas ficou um bagulho chato porque o cara é morador e nunca aconteceu isso com ele. Aconteceu agora e aí ele se sente magoado. Depois fomo lá, conversamo com ele, mas mesmo assim não adianta. Apanhou, não tem como retornar. Depois, eles pegaram a garota, bateram nela, furaram a mão dela e mandaram pro hospital também.

Mas teve um outro, de vocês, que também foi ferido e levou tiros.

Caio: — Foi o Mamão, que saiu correndo pela escada

— Ah, o Mamão. Esse aí, coitado, não tinha nada a ver, também, é outro.

Caio: — E por causa disso eu quase levei um tiro.

— Os meus cara pensou que ele tinha derramado. Aí trouxeram ele e iam levando pra cachanga (esconderijo), quando Deus salvou ele. Foi Deus que viu que o cara não tinha nada a ver. O outro, que é quem tinha robado, tava lá, passando batidão. E o cara aqui na mão da gente: “Não cheiro, não faço nada”. “Mas cumé que tu derramou, cara?” Não soube explicar, de tão nervoso que tava. Aí teve uma crente que passou na hora. Dia de domingo, as crente vem com um papelzinho, dando uns folhetos, Jesus te salva, Jesus não sei o quê. Aí deu um na mão dele. Isso na rua, indo pra cachanga. Daqui a pouco o cara sai voando, com o folheto na mão, correndo no meio de uns quinze, vinte vagabundo. Pegou a rua, despinguelou e vagabundo pou-pou-pou pro alto e pou-pou. O cara subiu a ponte e nego dando tiro. Aí desceram de carro e foram até na Brasil atrás do cara, mas ele conseguiu ir embora. Passou duas semana, o cara que tinha robado começou a vacilar. E derramou também. Aí chamamo ele. Morador daqui, cria daqui, escuta bem: “Cadê as carga?”. Contou uma história, levaram ele, apertaram: “Cadê as carga?”. “Ah, eu cherei tudo, gastei ca minha mulher, fui pro hotel.” E o pau tá comendo. Ele já não tava aguentando mais. Aqui dentro, pra bater! Os caras gosta de bater.

Bate com quê?

— Pau, ferro, pé, chute na cara, mete a porrada mesmo, o pau come. Aí o cara falou: “Realmente foi eu que robei a carga do Mamão”. Eu falei: que safado, mané! Imagina se a gente tivesse matado o cara. Graças a Deus que ele foi embora! Tá vivo. Até mandei um toque pra ele vir aqui. Enquanto isso, o pessoal tá espancando o cara que robou: “Vamo matar, vamo matar!”. E a família chorando na esquina, já sabendo que ele tá amarrado na cachanga pra cair. Tá a filha, tá a mulher, tá a mãe, tudo chorando. “Vamo matar, vamo botar logo no carro e vamo levar.” Eu falei: “Não, não é assim também. O cara é cria da favela. Tá certo que o cara derramou — errou! —, mas a família do cara tá ali: mãe, filho, mulher, tudo ali chorando na esquina”.

Chamei todo mundo: “Olha lá o pessoal tudo chorando”. Porque a gente é bandido, a gente leva essa vida, mas também percebe as coisa. Tem o momento de ser ruim, mas é só uma criança pedir pra gente não fazer, a gente não faz. Se eu falar: “Não vai fazer”, ninguém também não faz. Eu olhei assim, falei: “Sabe duma coisa: quanto foi o prejuízo?”. “Duzentos e tal”, disseram. “Então, não mata o cara não. Eu que tou pedindo pra não matar. Deixa o cara vivo. Eu dou até o dinheiro pra não matar.” E eles: “Pô, depois que já tá tudo pronto!”.

E como terminou?

— Ele tava todo espancado, até hoje tá arriado dentro de casa. Ficou todo quebrado, mas tava vivo. Olhei assim: “Pode deixar comigo. Desamarra ele”. Desamarrou, tiraram o bagulho da boca dele. Aí falei pra ele: “Tá vendo que que tu arruma? Pra entrar nessa vida não é assim não. Tu vai embora, mas vou te falar. Tu não vai se envolver mais com boca de fumo. Tu vai trabalhar, tu vai ter que mostrar tua carteira assinada pra mim”. Tava com a roupa toda rasgada, mandei apanhar uma roupa na casa dele. Foi assim que eu livrei a cara dele.

E depois ele mostrou a carteira?

— (Rindo) Mostrou. Não é bem carteira, porque tá em período de experiência. Ele mostrou contrato e o contracheque. Morador vê um bagulho desse, passa a ver que tem recuperação.

Esse é um caso que você impediu. Agora, lembra de um caso em que você decidiu a execução ou executou.

— Deve ter uns dois mês: foi o caso de uma mulher que rodou lá na boca e foi pra 39a dp. Chegou lá e disse pro delegado que sabia onde um moleque tinha escondido uma metralhadora. E levou os homes onde tava a arma. Eu tive que dar 400 mil pra soltar o moleque. Ela morava aqui na favela, caguetava e ficava aí mesmo. O moleque pegou, não matou não. Deu um socão por dentro da cara dela e ela veio com o olho roxão aqui pra dentro. Foi um dia de domingo, eu tava bem ali, ela chegou com os papel na mão e com a bolsa com a roupa dentro. “Ah, que eu vim aqui dar queixa do Zé do Maranhão e do fulano e do bertano, porque rebentaram a minha cara.” Aí eu olhei pra a cara dela e falei bem assim: “Vem cá. Não foi a senhora que foi na 39?”. “É, realmente eu fui lá na 39.” “E o que que a senhora falou com os policiais lá?” Aí, não foi eu só que escutei. A malandragem toda tava ali. Foi no miolo da boca. “Fui lá porque o delegado mandou me chamar, pra mim reconhecer o Zoio de Gato, eu falei que era o Zoio de Gato, inclusive eu levei os policiais lá.” Ela tava se passando como maluca. “Ah, é?, então vamo embora conversar.” Levei lá na cachanga, peguei uma folha dela e tinha uns telefones da dre, do delegado e dos policiais da dre. Até cartão de muita gente. Eu falei: “Não precisa falar mais nada não”. Levei prum canto e quebrei ela logo.

Quando você diz quebrou quer dizer que você matou?! 

— Eu matei, é. No caso, eu matei.

Você nunca sente remorso?

— A gente fica sentido, né? Mas também tirar a vida da pessoa, vamo dizer, sem ter fundamento nenhum, eu não tiro. Tiro sim, quando tou sabendo o que tou fazendo.

Caio: — As penas são sempre a morte?

— Estuprador, ladrão de bujão de gás, eu não mato não. Mas eu furo a mão, furo o pé, boto pra ir pro hospital, pra não deixar acontecer. Porque se deixar acontecer, vai acontecer sempre. Tem aquele ladrãozinho de favela: aí roba um balde, roba uma roupa no varal, roba uma pá, uma ferramenta de obra, um tênis de marca. Se a gente descobrir quem é, a gente fugueta logo. Porque se a gente deixar acontecer, aí vai robar uma televisão. O morador vê que a gente tá fazendo um negócio certo.

A população apoia?

— Ah, sim, porque se deixar acontecer, daqui uns dias tão robando o deles. Ah, é ladrão? Tem morador que até bate também. O quê? O pau come. Bota na mão de morador e morador bate.

Quando houve aquelas brigas de funkeiros nas praias, dizem que você reuniu os meninos. É verdade?

— Chamei, pra mais de quinhentos funkeiros. 

E aí, que que você disse?

— Eu não falei que ia matar, que ia fazer. Falei que não queria que eles me enxergasse como bandido. Queria que eles me enxergasse como um amigo deles. Tinha uns quinhentos! Mulher, homem. Aí eu dei uma ideia a eles que eu acho que valeu a pena. Até hoje eu acho que não houve mais nada. Parou. Esses moleques, a maioria é engraxate. Fica tudo lá pra baixo. Participa de baile, diz que é cv, é não sei o quê. Mas não é nada disso.

Não tem nada a ver com vocês?

— Não tem nada a ver ca gente, com nossa quadrilha aqui. Fala que é de Vigário e queima mais ainda. Eu não bati em ninguém, não fiz nada com ninguém. Eu dei só uma ideia pra não acontecer mais. Eu falei que se acontecesse, eu ia logo dar um exemplo a eles. Vamo dizer, o primeiro que acontecesse eu ia matar. Eu falei que não ia livrar a cara de mulher e nem de homem. O primeiro que viesse com briga aqui na favela ou lá embaixo, em Copacabana, eu ia matar. Então, de lá pra cá não houve mais.

E essa reunião você fez onde?

— Eu fiz lá em cima no Mercadinho. Muita gente! E não foi só daqui não. Veio gente lá de fora, veio do Dique.

Caio: — Só no papo?

— Só na ideia. Não foi nada de terror, não. O pessoal que tá pegando ônibus é trabalhador. Senão, pegava um táxi, não ia de ônibus, ou comprava um carro novo. Eles pegaram uma mulher e jogaram fora do ônibus, não sei se o senhor soube, saiu na matéria. O senhor soube que jogaram uma mulher?

Não, eu não soube não.

— Inclusive a polícia parou e quebrou todo mundo na porrada. Teve duas minas que chegou aqui com os dentes quebrados. Aí eu perguntei a elas: “Vem cá, por que que os policiais quebraram teus dentes? Tu tem que mentir é pra eles, pra mim não”. Ela falou: “Realmente eu tava robando. Eu robei mesmo, por isso que eles me quebraram”. Eu falei: “Se você tivesse sentada no seu cantinho, eles não ia lá te bater não. Você tava robando relógio. Quanto vale o relógio?”. Ela falou que vendeu o relógio por 1300 cruzeiros. Eu falei: “E quanto vale os seus dentes agora? Não vai nem pagar os seus dentes”. Quando eu perguntei quem é que tava na praia, eu acho que uns duzentos, todo mundo levantou o braço. Falei: “Vocês acha bonito o que vocês fizeram? Viu a matéria que saiu na televisão, falando que é de Vigário?”.

Caio: — Você viu que eles fizeram “CV” com o dedo?

— Vi. Aí eles disseram: “Realmente a gente erramo, mas a gente não vai fazer mais”. Da parte daqui, eu creio que não vai ter mais isso.

Você sai pouco, né? 

— Não. Eu ando tudo. 

Vai pra Zona Sul, vai namorar? 

— Vou, pra hotel…

Caio: — Pra baile?

— Não. Baile eu não vou não. Já fui a muitos, mas na fase que tá, que tão me queimando mesmo, aí eu não posso ficar dando mole. Eu vou aqui no baile do União.

Você é um homem rico? 

— Rico, não sou não.

Você reinveste o dinheiro?

— Meu dinheiro, vamos dizer que eu não esbanje, que eu não faço farra.

Você gasta mais em quê?

— Mais em despesa. Eu invisto alguma coisa: no comércio, na equipe, na comunidade. Estou fazendo uma quadra lá atrás também. Eu quero ter orgulho de ver montada. Eu não sei se vou ter oportunidade de ver montada. Se eu puder ir gastando o mais rápido possível, pra mim é melhor. Tem a lanchonete também que eu estou fazendo.

Caio: — Conta em banco, investimento assim, você não faz?

— Não faço não. Uma vez eu perdi um dinheiro assim. Eu investi uma vez num negócio do meu irmão, espremeram tudo, perdi tudo, não fiquei com nada.

Caio: — O Adão tinha investimentos em apartamento

— Mas isso eu tenho: casa, táxi, caminhão, eu boto em alguma coisa que amanhã ou depois eu sei, se eu precisar, onde retornar. Pode até demorar, mas sei que o bagulho meu tá garantido.

Caio: — Você sabe qual é o seu movimento por mês?

— Não, isso aí eu não creio não. Tudo que eu faço é pra minha família. Eu não apanho nada. Eu tenho táxi, mas eu não apanho o dinheiro do táxi. Eu dou pra minha filha, pro meu filho, pra minha mulher. Eu quero é que não desfaz. Escangalhou? Tem que reformar, consertar, botar pronto. Você vê que meu irmão trabalha. Se ele fosse outro, ele tava do meu lado, segurando uma arma. Ele não, tá todo sujo de graxa.

Caio: — Mas quando ele precisa tu dá uma injeção.

— É, eu ajudo ele, porque eu sei que o dinheiro dele não dá. 

O movimento daqui é importante no esquema do Rio? Tem gente que fala em milhares de dólares por semana.

— Não, não é isso não.

Se a gente falar em 500 mil dólares, é um absurdo? 

— É um absurdo, é muito dinheiro, não entra isso não. 

Duzentos mil?

— Aqui, por semana, retorna em torno de 2 milhões de cruzeiros.

Dá o quê, só 5 mil dólares?

— E isso a gente tem que dividir entre três. E ainda tem que pagar a mercadoria. A gente não sabe fazer. Se soubesse fazer (rindo), ficava diferente. Aí ia arrebentar mesmo. Mas eu não sei fazer. Então a gente apanha de fora.

Tem gente lá na Zona Sul que ganha mais do que vocês com essas paradas aí?

— Ganha. A comunidade é pobre.

Não, o que eu quero dizer é o seguinte: tem uma outra ponta nesse esquema, além de você, fora daqui, que ganha com isso e que não aparece?

— Tem, tem, tem.

O Flávio Negão não é a última ponta dessa fieira? 

— Tem mais gente, lá fora.

Quem é essa gente? Quem manda em Flávio Negão? 

— Isso eu não posso dizer.

Mas é gente importante?

— Ah, é, muito importante. Tudo colarinho branco. 

Caio: — Empresários, políticos?

— Tem de tudo.

Caio: — Tem um livro sobre o Comando Vermelho, não sei se você leu, que diz que o Adão é um dos grandes fornecedores de armas do CV.

— Não é não. A gente tem o contato, o matuto. A gente tem o contato com aquela pessoa. Ele só chega aqui e entrega à gente: é tantos dólares, se a gente quiser; se não quiser, ele leva de volta.

Quer dizer, vocês não saem para buscar arma?

— Não, a gente não sai pra apanhar nada lá fora não. Pro Estados Unidos, vamo dizer, como é que a gente vai atravessar? Aquilo ali passa por aeroporto.

Você já fez alguma viagem internacional?

— Não. Já fui lá pro lado de Mato Grosso. Pra fora não. 

Que cicatriz é essa no peito?

— Foi tiro. Me roeram o dinheiro na época. Vai fazer dois anos. Pegou no pulmão. Eles pegaram, me extorquiram o dinheiro. Se eu não desse eu ia pra dura. Então eu tinha que dar pra vir embora. Quando é assim a gente dá mesmo. Eu fiquei sete mês parado, fiquei arrasado, sem nada.

A polícia toma mesmo dinheiro assim? É geral?

— Apanha. Até delegado. Eles tudo é uma cachorrada só. Delegado e policial. Vamo dizer, eles me apanham pra me levar pra delegacia. Eles não vai ficar andando comigo, porque fica com medo dos caras sair pra me resgatar. Eles pegam, me botam dentro de uma casa ou me bota dentro de uma delegacia e deixa escondido lá pra dentro.

Você hoje é um dos bandidos mais procurados, não? 

— Mais procurados.

Caio: — Como é que você se sente? 

— Porra, eu fico assim meio… (ri) 

Caio: — Você dorme tranquilo?

— Não durmo tranquilo não. Não dá pra dormir não. Policial já chega aqui dentro: “Cadê aquele fulano?”. Se entrar trezentos policiais aqui revirando, isso aí abala a gente. É melhor a gente dar um tiro na cabeça, pra acabar logo.

Você gosta dessa vida?

— A vida que a gente leva é barro duro. É uma vida sofrida mesmo. A gente pula a maior fogueira, não dorme de noite. Eu gostaria de sair dessa vida, entendeu?

Caio: — Você acha possível?

— Eu creio que dá pra mim sair. Sair não, sair assim de vez não dá. Mas eu posso sair. Eu posso ir pra fora daqui do Rio, pra qualquer lugar.

Caio: — Suponhamos que você fosse para Mato Grosso. Seria difícil te encontrar?

— Eles não me acham não, Caio. Se eu sair, eles não me acham não.

Caio: — Soube que teve um cara de vocês que saiu.

— Saiu e ele tem pobrema na Justiça. Mas eles não acham ele não. Onde tá, tá bem. Tá só curtindo a dele.

Quantas condenações você tem?

— Não tenho condenação nenhuma não. Inquérito mesmo que eu tive, muito tempo atrás, foi negócio do meu irmão, que a juíza falou que eu tava ameaçando os pessoal e eu não tava ameaçando ninguém. Aí a juíza mandou me prender. Fiquei nove dias preso. Aí depois ela mandou me soltar. Em 89, eu rodei também metendo um negócio do carro-forte, dentro da Kelson. Mas com um mês e 23 dias o advogado me botou na rua.

era carro-forte? Então foi um dos primeiros, antes de virar moda, não?

— Em 89 a gente já barulhava. Agora, ganhou fama: é o grupo caipira, grupo não sei o quê.

Você sabe tudo o que acontece aqui dentro? 

— Ah, sim.

Quando eu entrei aqui a primeira vez, você soube que eu estava entrando?

— Soube. Aqui, quando entra, é porque entra acompanhado. No caso, o senhor entrou com o Caio. Sozinho, o senhor não ia entrar. Se entrasse sozinho, o senhor já tá sendo olhado desde lá na frente. Ninguém vai parar o senhor, mas todo mundo já tá olhando. O senhor vai ter que contar uma história na saída. Se o senhor entrou, é que tá procurando alguém. Se o senhor entrar, rodar, sair, não falar com ninguém, o senhor pode tá até em cima da ponte, mas a gente vai lá e busca o senhor. “O coroa lá tá andando, deu a volta por ali, voltou, retornou de novo, saiu pela Vila Nova, vai passar lá na frente agora, não sei o que ele tá procurando.” Mas antes de dar uma dura, eu mando uma pessoa: “Vem cá, o senhor tá procurando quem?”. Mas em geral a pessoa já vai direto no movimento: “Eu tou procurando fulano, há muito tempo que eu não venho aqui”. Se eu tiver ali na hora, eu digo: “Leva lá na casa de fulano, que é parente dele. Pra não ficar rodando”.

Outra coisa: eu deixo meu carro lá fora. No primeiro dia, esqueci o carro aberto e saí à meia-noite. Aí me disseram: “Fica tranquilo que aqui ninguém rouba”.

— Ninguém mexe não. Da localidade, ninguém mexe. E de fora também não. Porque eles sabe como é que a gente é. Tem umas duas semanas, robaram da minha Kombi. Mas quem que foi? Foi polícia que robou, o vigia viu. Quebraram o vidro e apanharam o rádio. O pobrema é a polícia.

Você tem três filhos e um quarto a caminho, né? 

— É, tá a caminho já.

Qual a idade?

— Um tem dois anos, Flávio Júnior; o outro é o Jeferson, que tem um ano e pouco; e tem um que é o Jarbas, tá agora com sete meses.

O que está a caminho deve nascer quando? 

— Acho que outubro. Outubro não, antes disso.

São várias mulheres, né? O Caio andou umas oito casas pra descobrir você.

Caio: — Não dá briga dessas garotas não?

— (Rindo muito, satisfeito) Ih, dá uma brigalhada danada. Cê não viu a lora ali atrás de mim? Uma praga!

Caio: — Eu brinquei com ela: “Vem cá, o cara dá no couro legal?”. Ela riu.

— (Dando gargalhada) Tem que ser um pouco pra cada uma.

Caio: — Eu nem sabia que você estava com a Angélica. Ela tem quinze anos!

— Angélica tem quinze anos e já é mãe do Jarbas.

Você gostaria que seus filhos seguissem a sua vida? 

— De jeito nenhum.

Que que você quer que eles sejam?

— Quero que eles estude. Vou deixar bastante pra eles pra isso.

Por que o apelido de Negão? 

— É de infância.

Eu achava que você era um negro enorme. Você mede quanto?

— Um metro e pouco, um metro e sessenta, por aí.

O Caio mede 1,59 m. Você deve ser a mesma coisa. E pesa quanto?

— Uns quarenta e pouco, 47.

Caio: — Não foi pelas marcas de queimadura também? 

— Não, isso foi de infância mesmo. Eu tenho uma irmã que é morena também. Os outros tudo branco: Djalma, Lúcia e Jarbas era branco pra caramba. Eu e ela saímo moreno, puxamo a minha mãe. Então um vizinho: “Ah, o Negão e a Nega”. De lá pra cá danou.

E essa cicatriz aí na testa?

— Bati com o carro. Fui levar uma pedra pro cemitério e quase que eu vou junto também pra lá.

Caio: — Você uma vez caiu também de uma laje, não? 

— Foi lá de cima da associação. Quase que eu perdi essa perna aqui, a esquerda. Tava soltando pipa, no tempo de moleque, não medi a laje e fui lá embaixo. A telha cortou. Tomei trinta e tal ponto.

Na perna foi queimadura? 

— Foi.

Você tem problema de saúde?

— Tenho, tenho. Pobrema de pulmão. A bala atingiu, eu perdi 50% do pulmão esquerdo, onde foi atingido. Mas eu me sinto bem assim.

Mas você também tem uma vida saudável: dizem que você não bebe, não fuma, não cheira.

— Fumar a gente fuma, vamo dizer, pra dar uma fome. A gente não sente fome. Se a gente fumar uma maconha, dá fome. Mas não é todo dia não.

Caio: — Mas tem muitos dos seus que fumam.

— Tem gente que já acorda com um bagulho na boca.

Você não cheira porque, como chefe, não deve cheirar ou porque você não tem vontade?

— Não, eu não tenho vontade. Não fumo, não cheiro, não bebo. Já é de mim mesmo, de próprio de mim mesmo.

Mas um chefão como você, se cheirasse, não perderia a moral?

— Não, não perde não.

Mas o seu pessoal cheira?

— Eles fuma, cheira, fica naquele pânico. É vício deles mesmo. Quando eles cheira, eles fica tudo envenenado. Eu já não gosto nem de ficar perto. O Chico Rambo, quando ele cheirava, ele danava a matar morador. Num plantão de noite, que nem hoje de manhã, tinha uns caras cheirados. A gente fica vigiando, que tem morador que tem medo. Vai comprar um pão na padaria: “Ih, fulano tá chapado”. Chega uma certa hora que é preciso mudar de plantão. Tal hora você recolhe um e bota logo outro. Por causa que o morador tem medo deles ficar com aquela arma na mão e cismar contigo. Se eles cismar com aquele buraquinho da fechadura ali, ele vai ficar aqui olhando direto para aquele negócio ali, já apontando assim. A pessoa toma medo. Eu mesmo não gosto nem de ficar perto. “Vai lá, rapaz, vai dormir, vai descansar!” Aí eles se manda. Mas também tem pessoa comigo que não cheira, não fuma.

Você não tem medo de um cara desses se rebelar contra você?

— Não tenho não. Não tenho porque eu conheço eles.

Como é a hierarquia aqui: você lá em cima e abaixo de você tem o quê, os gerentes?

— Tem gerente, tem vapor.

Soldados quem são?

— Soldado é os que fica vigiando, fica andando, rodando de bicicleta.

Caio: — Não tem fogueteiro?

— Tem, mas não precisa mais não. Os fogos agora é eletrônicos.

Eletrônicos?

— É. Depois o senhor vai lá dar uma olhada. É só apertar, detona na hora. Porque antigamente tinha um montão de fogueteiros. Os policiais entrava e os fogueteiros chapado não sabia se acendia ou se corria. Isso aí atrasava a gente. Agora não: “Os home deixou a passarela, os home tá entrando”, aí eles já vai no botão e detona na hora.

Caio: — Isso existe em outro lugar? 

— Não, isso foi a gente que inventamo. 

Caio: — Como são suas relações com Nahildo?

— A bandidagem não se mete com seu Nahildo, não. Tem uma eleição, como ia ter agora, a gente não tem envolvimento com nada. Quem ganhar leva. Mas tem que fazer pela favela. O seu Nahildo já fez muito. Eu chego e digo: “Ô, seu Nahildo, será que não tem condições de botar água na Brasília?”. Uma ideia, mas ele é que decide. Calor de quarenta graus, o pessoal sem água. Ele instalou a água. A gente dá só uma ideia.

Lá em Lucas, o seu Ari da Ilha disse que o Robertinho fez mil coisas, asfaltou. Parece que fez mais do que você aqui. 

— Fez, fez sim.

Por quê, porque ele tem mais dinheiro?

— Não, porque ele tem conhecimento. A gente não tem conhecimento com deputado, com vereador, que possa fazer pela favela. Mas Lucas já é asfaltada há muito tempo, não é de agora não. Já veio de gerações. Ele já pegou o bagulho todo pronto.

No dia da inauguração da Casa da Paz, a coisa esteve feia, né?

— Imagina se sai um bangue-bangue ali. Ia queimar nosso filme. Eles iam dizer: fomo recebido à bala. Graças a Deus que não aconteceu nada. Jogou todo mundo recuado. A gente não tem como impedir a polícia de vir, porque a obrigação deles é vir. Se eles tem um mandado pra vir, vai ter que vir mesmo. O que não pode é, sem mandado nenhum, ficar aí perturbando. Se vem me procurar, aí tá certo. Entra, vasculha a favela toda, aí certo. Mas vir com mineirada, chegar na casa dos outros e levar televisão, dinheiro, tudo, aí não. Mineirada não. Aí a gente manda bala neles mesmo.

Você tem muitos inimigos no mundo do crime?

— Tenho não. (Rindo) O inimigo que eu tenho saiu daqui corrido.

Mas não tem o risco dele querer voltar um dia?

— Pelo que conheço dele, o bicho é ruim mesmo. A gente não vai confiar que ele não vai vir. De repente ele vem. Mas também a gente tá preparado. Por isso o jeito que a gente anda. A gente tá esperando qualquer coisa: é polícia, é uma traição desse cara aí do lado. Eles não exibe arma, mas tem tudo guardado. De repente tem uma reviravolta aí e a guerra começa de novo.

Você tem medo de ser preso?

— Eu nem penso em ser preso. Eu não vou dar esse gosto a eles não. O que eles quer é me pegar vivo, mas eu não vou dar esse gosto a eles não.