SOBRE
O PROJETO
MARCELO
BERABA
DORRIT
HARAZIM
JOSÉ
HAMILTON
ROSENTAL
CALMON
JOEL
SILVEIRA
Marcelo Beraba

Marcelo Beraba, o estrategista

O que considera o seu maior legado?
“A participação na criação da Abraji e na aprovação da Lei de Acesso à Informação, a implantação do Projeto Tim Lopes (de proteção a jornalistas) e a ênfase na formação de quadros.”

SOBRE Marcelo Beraba

Por causa da obsessão em guardar documentos é possível desenhar, com razoável precisão, como era o método de trabalho de Marcelo Beraba.  Acordava muito cedo, lia com lupa a edição do dia do jornal e dos principais concorrentes e anotava as observações em pequeno bloco de papel. Tinha mania de carregar bloquinhos que cabiam no bolso da camisa e anotava neles suas observações com letra miúda e de forma compreensível. Na viagem de casa até o trabalho, revisava mentalmente as prioridades do dia e o que deveria ser corrigido.

texto Elvira Lobato / edição Maiá Menezes

Marcelo Beraba tinha 25 anos quando se aventurou pela primeira vez pela região amazônica em busca de resposta para uma questão que mobilizava parte da esquerda no regime militar: o papel das missões religiosas junto às populações indígenas. A Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) era presidida pelo general Ismarth Oliveira, que se opunha às posições do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) da Igreja Católica. A ameaça de expulsão das missões era evidente em janeiro de 1977, quando Beraba e o fotógrafo José Vidal iniciaram a viagem para a região do Araguaia, no Noroeste do Mato Grosso.

O objetivo era registrar e comparar a atuação de uma missão católica – As Irmãzinhas de Jesus, numa aldeia Tapirapé, em São Félix do Araguaia – com uma evangélica, da Igreja Adventista do Sétimo Dia, na aldeia Carajá, na Ilha do Bananal. A reportagem mostrou que a primeira respeitava os costumes indígenas e trabalhava em prol deles, enquanto a segunda os violentava em nome da evangelização. A ameaça de expulsão parou após a reportagem.

Beraba guardou as anotações daquela apuração por 47 anos, até sua morte, em julho de 2025.

A forma como organizou a viagem, como pensou e executou a pauta; e o registro do passo-a-passo em um diário de capa dura dizem tudo sobre seu método de fazer jornalismo, tanto como repórter como nos cargos de chefia e de direção de redação que exerceu nas quatro décadas subsequentes. Ele influenciou várias gerações de jornalistas com seu planejamento e foco em qualificação.

Diário da viagem a São Félix do Araguaia (Arquivo pessoal)

O diário de bordo da viagem ao Araguaia tem anotação detalhada de gastos, os cartões de embarque nos voos entre Rio de Janeiro e Brasília, um mapa desenhado de próprio punho com identificação dos rios e das aldeias visitadas, anotações de pesquisas antropológicas e a descrição do encontro com o entrevistado mais proeminente: Dom Pedro Casaldáliga, então bispo de São Félix do Araguaia, um dos mais influentes defensores da Teologia da Libertação.

Anotou os livros e discos de música popular brasileira dispostos na sala do bispo bem como suas impressões pessoais sobre o que viu e ouviu. Os textos foram publicados pelo Globo nos dias 6 e 7 de janeiro de 1977.

Em São Félix do Araguaia em 1977, com Dom Pedro Casaldáliga à direita (Arquivo pessoal)

Quando a reportagem foi feita não existia internet, computador ou telefone celular.

Os repórteres partiam para missões distantes sem as facilidades que se tornaram banais com o avanço tecnológico. O mapa desenhado a mão seria dispensável se ele pudesse contar, por exemplo, com os serviços de localização por satélite.

Terceira e última parte do especial sobre São Félix do Araguaia (Arquivo pessoal)

Disciplina

Beraba teve uma formação semelhante a de alguns jornalistas de sua geração: foi aluno interno em seminários católicos dos Irmãos Maristas no Espírito Santo e no interior do Rio, o que lhe deu disciplina e senso de responsabilidade pouco usuais. Retornou para a capital fluminense para cursar o ensino médio no colégio Santo Inácio, dos Jesuítas. Tornou-se ateu convicto após a longa imersão católica, mas manteve interesse jornalístico por assuntos religiosos.

O seminário o influenciou na convivência com estudantes pobres de origem rural – que tinham as instituições religiosas como opção de ensino gratuito e de qualidade – e no desenvolvimento do hábito da leitura e da escrita. Foi um leitor ávido até os últimos dias de vida. Deixou uma biblioteca com mais de mil livros sobre jornalismo, além de centenas de outros de literatura, filosofia, história e assuntos diversos.

Nasceu em 29 de abril de 1951, em uma família de classe média na zona sul do Rio de Janeiro. Aos onze anos, para surpresa dos pais, optou pelo internato no seminário. Aluno extremamente aplicado, passou em primeiro lugar no vestibular para o curso de comunicação da UFRJ e, em razão disso, o jornal O Globo lhe ofereceu um estágio. Começou o estágio em fevereiro de 1971, um mês antes do início das aulas na faculdade.

Quando entrou na redação do Globo pela primeira vez, ficou chocado com o linguajar repleto de palavrões dos repórteres da editoria de polícia e com as condições de trabalho dos revisores, mais velhos, sentados em fileiras de mesas, corrigindo os textos dos repórteres. A imagem dos revisores enfileirados nunca saiu da memória dele: “O chefe distribuía as laudas e todos começavam a datilografar ao mesmo tempo, tátátátá. Pareciam remadores do filme Ben Hur”, dizia. Sua memória também foi marcada pela imagem de um revólver 38 na gaveta de um dos chefes de reportagem da editoria de polícia. Em compensação, encantou-se com a presença de Nelson Rodrigues que escrevia para a editoria os esportes e, como ele, era fluminense roxo.

Erro exemplar

Os que conviveram com Marcelo Beraba são testemunhas de que era avesso à autopromoção, ao passo que falava em público sobre um erro cometido no começo da carreira, que lhe ensinou a ser um repórter melhor. Nos anos 1970, o Globo tinha repórteres setoristas nos grandes hospitais públicos, no Aeroporto Santos Dumont e nos órgãos da administração pública porque priorizava a prestação de serviços. Beraba era setorista no Detran e passou vários dias apurando a arrecadação das multas de trânsito que eram aplicadas pela Polícia Militar. A reportagem foi construída na premissa de que o dinheiro ficava com a PM e foi publicada com chamada na primeira página. No dia seguinte, o Detran contestou a informação e informou que a receita ia para o orçamento geral do Estado. Logo, a matéria estava errada.

A experiência lhe ensinou que jornalismo é uma profissão de alto risco e que não se pode publicar algo baseado em suposição. Ficou arrasado, mas o jornal não deu importância ao fato. Aquele erro incutiu em sua cabeça a obsessão pela checagem das informações, um dos fundamentos do jornalismo alardeados por ele.

Foi repórter do Globo de 1971 a outubro de 1984, com uma interrupção de um ano. O compenetrado Beraba viveu um momento de rebeldia na juventude, quando se demitiu do jornal e abandonou a faculdade de jornalismo. Como se dizia na época, ele “desbundou”. Matriculou-se em um curso de teatro e, apesar de sua pouca habilidade para trabalhos manuais, sobreviveu parcamente com a venda de pulseiras de fios de cobre que ele próprio produzia e deu aulas de cursinhos de pré-vestibular. Depois de um ano, retornou à faculdade e foi readmitido pelo Globo.

Ao retornar, encontrou o ambiente da redação totalmente mudado, após a entrada de Evandro Carlos de Andrade, que modificou a concepção de organização da redação, modernizou equipamentos e incorporou a editoria de polícia à de Geral.

A cobertura policial continuou relevante, mas ficou menos sensacionalista e passou a ter matérias especiais baseadas em estatísticas de criminalidade. Beraba aprendeu a buscar dados nos boletins de ocorrência das delegacias, o que exigia paciência e organização. Para ele, o impacto da modernização no Globo sobre os repórteres, guardadas as proporções, foi comparável ao do Projeto Folha, empreendido por Otavio Frias Filho dez anos mais tarde.

Riocentro

O trabalho de maior repercussão dele, como repórter, foi a cobertura do atentado a bomba do Riocentro, em abril de 1981. Ele conseguiu as fotos do capitão Wilson Machado (ferido acidentalmente ao transportar a bomba) dentro do Hospital Miguel Couto, que comprovaram o envolvimento dos militares na tentativa terrorista e mudaram o curso das investigações daquele caso.

A partir de 1976, o Rio viveu uma sequência de atentados terroristas contra o processo de abertura política. Começou com a bomba na sede da ABI (Associação Brasileira de Imprensa, em 1976). Depois veio o atentado à sede da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que deixou uma morte e seis feridos; a bomba no jornal Tribuna da Imprensa e outra na casa de Roberto Marinho. A cobertura do Globo era feita por equipes de repórteres, que seguiam o planejamentorigoroso das chefias. Beraba era parte da equipe de apuração. Quando estourou a bomba do Riocentro, ele foi para o Hospital Miguel Couto, no Leblon, para onde tinha sido levado do capitão ferido.

Vinte anos depois daquele episódio, ele contou em detalhes como obteve as fotos, no depoimento que deu ao projeto Memória, do Grupo Globo. Esses depoimentos não são públicos, mas o depoente fica com uma cópia. Eis como aconteceu, segundo as palavras dele.

“Ele (o capitão) estava no quinto andar do hospital e era meu plantão. (…). Alguém devia ter feito o mesmo plantão na véspera. Alguém faria o mesmo plantão no dia seguinte. Isso duraria enquanto ele (o capitão) estivesse lá. Eu e o fotógrafo Paulo Moreira chegamos cedo ao hospital. Nossa obsessão era saber se o capitão estava falando. Eu estava motivado basicamente por jornalismo mas tinha também uma questão política. Naquele momento, eu já era super politizado. Para o jornal, o interesse era dar o furo. Estávamos bem obcecados com isso, tentando subir escondido pela escada. Tinha Exército em tudo que era lugar. (..) Na lanchonete do Miguel Couto eu comecei a conversar com um médico residente. (…) E conversando, começamos a ter uma identificação política. Ele também era novo, mais novo do que eu, e era envolvido com o Sindicato dos Médicos.”

Segundo Beraba, deu-se o seguinte diálogo entre os dois:

“Vem cá, o que você quer realmente?”, perguntou o jovem médico.

“Eu quero uma declaração dele, ou então, sei lá, uma foto. Vê se você consegue me levar lá para que eu possa ver e descrever.”

“Oh, isso não dá. Agora, se você quiser uma foto e me ensinar, eu posso tentar fazer a foto pra você. Ele vai subir daqui a pouco da UTI para a sala de cirurgia e vai circular pelo corredor. Se você me ensinar, me explicar rapidamente, eu fotografo.”

“Saí correndo, peguei o fotógrafo, pedi para passar a máquina para ele e explicar como funcionava. Ficamos escondidos. Então ele foi e fotografou. Voltou com os filmes e corremos de volta para a redação. (…) No dia seguinte, foi uma festa na redação. Matamos a pau, caramba!”

Imagem que entrou na capa d’O Globo em 6 de maio de 1981 (Reprodução/O Globo)

Foto obtida pela dupla Beraba e Paulo Moreira (Reprodução/O Globo)

O Jornal do Brasil, principal concorrente do Globo à época, estava na dianteira na apuração do caso e liderava em furos. Com as fotos, a concorrência entre os dois veículos ficou mais equilibrada. Muitos jornalistas que trabalharam diretamente com Beraba só tomaram conhecimento da participação dele naquela cobertura histórica, no dia de sua morte, quando a TV Globo citou o fato no Jornal Nacional. Beraba raramente falava de seus feitos.

A resistência à ditadura militar, na década de 1970 e no começo dos anos 80, ajudou a moldar seu perfil e o papel que desempenharia mais tarde nas chefias. Durante os anos da ditadura, ele mergulhou no movimento sindical, tendo sido diretor do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro. Foi um sindicalista destemido. Implantou comissões de redação no Globo para reivindicar melhores condições de salário e de trabalho. Seus contemporâneos lembram que ele subia nas mesas para fazer discursos, o que, naturalmente, desagradava as chefias. Além da atividade sindical, foi membro da organização de esquerda Ação Popular (AP) e nos horários em que não estava no trabalho, escrevia para os tabloides de esquerda, como Em Tempo.

Mas também tinha um lado B, bem carioca, oposto do jornalista compenetrado. Jogou futebol no time “Três de Treze”, formado por repórteres. O nome do time era uma referência ao título mais difícil de se fazer em um jornal impresso, o de três linhas de treze toques. Os jogadores ficavam invariavelmente bêbados depois dos jogos. Amava as rodas de samba. Até depois de aposentado, enfrentava o calor de mais de 40 graus do verão carioca para ir à tradicional feira das Yabás, evento de gastronomia suburbana e de samba – no bairro Osvaldo Cruz, na Zona Norte. Ia de trem para os eventos, em vagões lotados. Torcia pela escola de samba Portela, mas se cansou cedo do carnaval que, para ele, era sinônimo de muito trabalho na organização da cobertura jornalística dos desfiles da Sapucaí. O sétimo dia de sua morte reuniu amigos no carioquíssimo “Samba do Trabalhador”, que acontece às segundas-feiras à tarde, no bairro de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio.

Nasce o chefe

A atuação de Beraba como repórter foi, praticamente, circunscrita ao período em que esteve no Globo. Em outubro de 1984, ele fez sua primeira mudança de emprego: deixou o Globo para se tornar repórter da sucursal da Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro. Aceitou o desafio porque decidira apostar na carreira profissional, após ser derrotado na eleição para presidente do Sindicato dos Jornalistas. Ficou apenas três meses como repórter e passou a chefe de reportagem.

A partir daí, colocou em prática o que aprendeu no Globo sobre a coordenação de equipes: foco, planejamento, rigor na apuração. Sua ascensão profissional no novo emprego foi meteórica. Após seis meses na chefia de reportagem, tornou-se diretor da sucursal do Rio, que viveu um período de grandes furos sob a gestão dele, como a revelação do campo de teste nuclear na Serra do Cachimbo, o vazamento de radiação na usina nuclear de Angra dos Reis e as contas secretas que financiaram o programa nuclear paralelo dos militares.

O Projeto Folha implementado por Otavio Frias Filho foi um casamento perfeito com o perfil de Beraba, porque criou um sistema de gerenciamento da redação: metas de produção e de redução de erros, treinamento e preparação de pessoal, manual de redação, ombudsman.“Foi o grande diferencial da imprensa escrita na década de 80”, no entendimento de Beraba.

A redação era predominantemente jovem naquele período. Otavio Frias Filho tinha 27 anos quando fez a reforma e impôs regras extremamente rigorosas para enquadrar a redação ao novo modelo.O desempenho de cada funcionário era medido por nota. A rotatividade era muito alta. O rigor interno da Folha era temido pelos profissionais do mercado, mas gerava resultados inegáveis em quantidade de furos e qualidade da cobertura.

Em 1988, Beraba mudou-se para São Paulo e assumiu a editoria de Cidades. Um ano depois, tornou-se editor de política e enfrentou o maior desafio maior de sua carreira:a cobertura da eleição presidencial de 1989, a primeira após o fim da ditadura militar que tinha como candidatos Leonel Brizola (PDT), Lula (PT), Fernando Collor de Mello (PRN) , Paulo Maluf (PDS) e Mário Covas (PSDB).

A cobertura da eleição de 1989 inaugurou procedimentos que foram repetidos pela Folha nas eleições seguintes e copiadas por outros veículos. Uma das inovações foi a criação do repórter “carrapato”, que tinha por obrigação acompanhar o candidato onde quer que fosse, durante o processo eleitoral. O carrapato não investigava o candidato. Cobria o factual. A investigação ficava a cargo de outros repórteres, que corriam por fora e também produziam as biografias dos candidatos.

Outra novidade foi o investimento nos cadernos especiais da eleição, com pautas pensadas com antecedência, serviços e análises. A Folha se diferenciou dos concorrentes ao investigar a gestão de Fernando Collor de Mello no governo de Alagoas e apontar seus crimes eleitorais, enquanto os outros grandes veículos embarcaram no marketing de campanha de “Caçador de Marajás”.

Com Clovis Rossi e Reinaldo Azevedo, em 1994, na Folha de S. Paulo (Arquivo pessoal)

Mudanças

Depois da eleição de 1989, Beraba ascendeu ao cargo de secretário de produção da Folha, mas a intensidade com que mergulhava nos projetos o fazia questionar suas escolhas, de tempos em tempos. No final de 1995, ele se demitiu para integrar o comando da redação do Jornal do Brasil, ao lado de dois amigos de longa data: Marcelo Pontes e Paulo Totti. A passagem pelo JB provocou uma mudança no seu relacionamento com a redação: Tornou-se mais afável, embora continuasse formal. O Jornal do Brasil era reconhecido entre os jornalistas pelo clima de camaradagem na redação. A sisudez à qual Beraba estava acostumado não combinava com o novo ambiente, e ele se deu conta disso.“Cada redação tem sua alma”, constatou.

A passagem pelo JB durou três anos. O jornal atravessava uma grave crise financeira e demitiu o trio que comandava a redação. Na sequência, ele teve sua única experiência fora da imprensa escrita: foi editor executivo do Jornal da Globo, que era apresentado, em São Paulo, por Lilian Wite Fibe. Não chegou a completar um ano na função, porque a família continuara no Rio. Convidado por Otavio Frias Filho, reassumiu a direção da sucursal da Folha no Rio de Janeiro, em 1999. Cinco anos depois, tornou-se ombudsman e ocupou a função até 2007.

Ao fim do mandato de ombudsman, e depois de alguns meses como repórter especial, trocou a Folha pelo Estado de São Paulo, onde ficou até se aposentar, em 2019. Foi diretor da sucursal do Estadão no Rio, editor chefe da redação em São Paulo e diretor da sucursal de Brasília.

O método Beraba

Por causa da obsessão em guardar documentos é possível desenhar, com razoável precisão, como era o método de trabalho de Marcelo Beraba. Acordava muito cedo, lia com lupa a edição do dia do jornal e dos principais concorrentes e anotava as observações em pequeno bloco de papel. Tinha mania de carregar bloquinhos que cabiam no bolso da camisa e anotava neles suas observações com letra miúda e de forma compreensível. Na viagem de casa até o trabalho, revisava mentalmente as prioridades do dia e o que deveria ser corrigido.

Fazia questão de estar na primeira reunião de pauta, da qual participavam os chefes de reportagem de todas as editorias. Com isso, os pauteiros tinham de acordar igualmente cedo e chegar preparados para um exercício diário de “jornalismo comparado” e para responder às cobranças, quando as orientações que havia dado no dia anterior tinham sido ignoradas. Nessas reuniões, definiam-se as prioridades do dia, que podiam ser alteradas se surgissem imprevistos.

Beraba orienta a equipe a Folha durante a Copa do Mundo em 1994 (Arquivo pessoal)

Cleusa Turra foi pauteira da editoria de política da Folha de S. Paulo na gestão de Beraba. Assumiu a função muito jovem, recém-saída da faculdade de filosofia. No primeiro dia como pauteira, recebeu um telefonema dele logo no começo do expediente. Ele perguntou se o jornal tinha sofrido furos da concorrência naquele dia. Ela respondeu que estava começando a ler o jornal. Ele demonstrou surpresa com a resposta. Perguntou se ela havia se atrasado e lhe deu meia hora parase informar. Naquele momento, ela entendeu que precisaria acordar às 6h para começar o expediente às 8h pronta para responder às perguntas do chefe.

“Beraba tinha uma forma de trabalhar muito racional. Método para ele era disciplina, regularidade e rotina. Havia dois tempos na cabeça dele: o planejamento do dia-a-dia e o do futuro, que podia ser o próximo domingo ou o próximo ano. (…) Não aceitava trabalho malfeito. Era simples assim. As informações tinham que ser compreensíveis para o leitor. Certa vez, ficou decepcionado com um texto e presenciei a conversa dele com o repórter. ‘Esse é o melhor que você pode fazer? Eu conheço seu talento e capacidade e está muito aquém do que pode fazer.’ Este era o jeito dele.”

Beraba durante seminário com repórteres da Folha, em São Paulo, em 1994 (Arquivo pessoal)

‘Mestre’

Ao abordar um repórter, começava o diálogo chamando-o de mestre, em demonstração de respeito profissional. “Tratava-os assim principalmente quando ia cobrar por algum erro. Era duro nas cobranças, mas respeitoso. Se queria criticar, chamava em um canto e falava baixo”, lembra Irany Tereza, que foi sua adjunta nas sucursais do Estadão no Rio e em Brasília.

Nas coberturas mais complexas, fazia mapas com identificação dos desafios e do papel de cada repórter envolvido. Ele próprio os desenhava e os colava sobre a mesa.Pareciam aqueles painéis nas paredes dos filmes policiais norte-americanos. Os mapas eram atualizados com caneta Pilot ao longo do dia.

Por ter feito parte de equipes numerosas no Globo, Beraba percebeu que um chefe precisa conhecer o potencial de cada um de sua equipe e colocá-lo na função certa. Com frequência, tirava um chefe ou repórter de uma área e o colocava em outra totalmente diferente. Em seus arquivos pessoais, consta o planejamento da cobertura de uma eleição presidencial pelo Estadão. Ele se reuniu individualmente com cada repórter e depois anotou em seu bloquinho as qualidades e ambições de cada um.

Orientar os repórteres em investigações jornalísticas foi a função preferida de Beraba, dentre todas as que exerceu em sua longa trajetória. Marcelo Moreira foi chefiado por ele na redação do Jornal do Brasil, quando produziu a reportagem premiada sobre o cartel das empresas de ônibus. “Foram alguns meses de apuração. Quando eu achava que havia concluído o trabalho, o Beraba me dizia falta isso, falta aquilo. Mas fiz a melhor reportagem da minha vida”, disse Moreira, que depois do JB fez carreira na TV Globo e atualmente chefia a Veja+TV, em São Paulo. Também foi presidente da Abraji.

Fundação da Abraji

O maior legado de Marcelo Beraba para o jornalismo foi a criação da Abraji. Partiu dele a iniciativa de convidar o grupo de jornalistas para constituir uma entidade de defesa e qualificação dos jornalistas, após o assassinato de Tim Lopes, por traficantes do Rio de Janeiro, em 2 de junho de 2002. Além de amigo e ex-colega de redação no jornal O Globo, Tim influenciou Beraba na compreensão do papel social do jornalista, conforme ele admitiu no depoimento para o Projeto Memória Globo, um ano antes do assassinato.

“Tim Lopes me fez perceber que subir favela é fundamental, que ir para a Baixada Fluminense (periferia urbana da cidade do Rio de Janeiro) é fundamental. Que não podemos olhar aquele mundo à distância, ou com o olhar marxista de achar que eles são o lumpen do proletariado e nós, os conscientes, é que faremos a revolução. Nada disso. Eu conversava muito com o Tim. Subi muitos morros com ele.”

Beraba durante uma das edições do Congresso da Abraji (Divulgação/Abraji)

Papel do jornalista

No depoimento para o Projeto Memória Globo, Marcelo Beraba mostrou sua visão sobre o jornalismo a qual, segundo ele, havia sido influenciada por conversas com Janio de Freitas. Ele a resumiu da seguinte forma:

“Meu papel profissional é ser intermediário entre o fato, o que é real, o que não é invenção, abstrato ou virtual e os cidadãos que precisam ter acesso a essa informação. (…) Eu tenho que ser o mais objetivo possível, o mais honesto possível, de tal maneira que a pessoa que confiou no meu trabalho veja nele uma contribuição para o entendimento, para o crescimento da cidadania e da concepção de uma democracia participativa, ampla, universal. E temos um papel social. Em um país como o nosso, em que a questão da miséria, da concentração de renda é tão vergonhosa e gritante, os jornais e os jornalistas não têm como se omitir. Na minha opinião, essa é a grande função conjuntural do jornalismo.”

Com Leonel Brizola, no Palácio das Laranjeiras em 1985, quando era diretor da sucursal da Folha no Rio (Arquivo pessoal)

Em um país como o nosso, em que a questão da miséria, da concentração de renda é tão vergonhosa e gritante, os jornais e os jornalistas não têm como se omitir. Na minha opinião, essa é a grande função conjuntural do jornalismo.
Em um país como o nosso, em que a questão da miséria, da concentração de renda é tão vergonhosa e gritante, os jornais e os jornalistas não têm como se omitir. Na minha opinião, essa é a grande função conjuntural do jornalismo.
Marcelo Beraba
ENTREVISTA

Nos seus últimos dias de vida, Marcelo Beraba e eu tivemos duas horas de conversas gravadas sobre jornalismo e sobre sua trajetória. Estava ciente de que eu iria fazer seu perfil para o site da Abraji. Não falamos sobre a iminência da morte, porque ela estava implícita e era irreversível. Falamos sobre o que lhe importou em vida e a Abraji foi parte importante dela.

Eis alguns trechos da nossa conversa:

Abraji: O que faz um bom chefe de chefe de redação? Quais as características fundamentais?

Beraba: Ter experiencia de coordenação e saber ouvir.

Abraji: Qual das funções que exerceu o realizou mais?

Beraba: O de editor do caderno de eleição em 1989. Eu não editava, propriamente. Eu coordenava.

Abraji: Qual o segredo para um bom planejamento de cobertura?

Beraba: O segredo, entre aspas, é conhecer a equipe. A vantagem da Folha na cobertura da eleição de 1989 é que eu sabia o que esperar de cada repórter, de cada integrante da edição. Não adianta ter o melhor repórter, se você não souber o potencial dele.

Abraji: Você sempre foi obcecado por planejamento e trabalhou nos quatro maiores jornais diários de sua época: Globo, Folha, JB e Estado de S. Paulo, que são muito diferentes entre si. Fazia alguma preparação prévia antes de assumir a chefia em um novo jornal?

Beraba: Sim. Eu pesquisava as manchetes e editoriais dos anos anteriores para entender em que campo eu estava entrando. Sou viciado em pesquisa.

Abraji: Procedeu assim quando foi convidado para o cargo de ombudsman?

Beraba: Quando o Otavio Frias Filho me convidou para ser ombudsman, pedi a ele um prazo de três meses para me preparar. Estudei os trabalhos do ombudsman em vários países. Eu já tinha ido à Espanha, enviado pela Folha, com a missão de conhecer o funcionamento do ombudsman do El País. Me preparei de várias formas. O CCBB (Centro de Cultura do Banco do Brasil) fez um ciclo de palestras sobre a crítica em vários campos: teatral, literária, audiovisual. Fiz o programa inteiro para me preparar.

Abraji: O que considera seu legado para o jornalismo?

Beraba: A participação na criação da Abraji e na aprovação da Lei de Acesso à Informação, a implantação do Projeto Tim Lopes (de proteção de jornalistas) e a ênfase na formação de quadros.

Abraji: Seu mantra, há muitos anos, tem sido difundir os fundamentos do jornalismo: a importância da observação, da pesquisa, da checagem e rechecagem das informações. Qual é o seu conselho para os jovens profissionais?

Beraba: Invistam na qualificação profissional.

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Nota da autora: Este perfil foi escrito com o coração e com a razão. Beraba e eu fomos companheiros de vida por 40 anos. Começamos a trabalhar -e a namorar- como repórteres na sucursal da Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro em outubro de 1984, mas logo ele iniciou sua trajetória de chefias. Foi meu chefe até o final de 1995, quando trocou a Folha pelo Jornal do Brasil.

Trabalhamos juntos novamente na Folha a partir de 1999, na sucursal do Rio, mas já não me chefiava mais. Eu respondia diretamente à direção de Redação, em São Paulo. Tivemos, nesse período, uma relação de dois profissionais maduros, que discutiam as pautas de igual para igual. Eu recorria aos conhecimentos dele quando me sentia insegura em algum assunto, e ele recorria aos meus. Ajudou-me, nessa parceira, em reportagens de grande repercussão, como a série sobre o trabalho análogo a escravo no agronegócio, que ganhou o prêmio anual de reportagem da Folha, em 2004.

O único tratamento diferenciado que recebi dele é que não me chamava de mestre, como fazia com os demais repórteres. Éramos ambos alunos.

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Um jovem repórter
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